RAIMUNDOS
ENTREVISTA
Andhye-De uma
banda que tocava covers do Ramones até o
primeiro lugar nas rádios. É claro que vocês
não imaginavam que chegaria onde chegou. A
partir de que momento vocês sacaram que o
Raimundos era uma banda grande?
Quando
a gente trocou de empresário (risos)! Um momento
particular que rolou foi quando a gente foi tocar
no Monsters of Rock, um show com altas
dificuldades técnicas, a gente era muito
inexperiente e mesmo assim a gente se deu bem e
na segunda-feira seguinte, a gente foi passear na
Galeria do Rock, bem no centrão de São Paulo e
eu vi as primeiras camisetas do Raimundos
vendendo nas lojas e, pô, fiquei orgulhoso pra
caralho! Esse momento foi legal, mas teve também
quando a gente tava em Belém e tava escutando
uma rádio e aí eu lembro que "Selim"
bateu primeiro lugar direto e anunciaram o nosso
primeiro disco de ouro. Foi muito louco porque a
gente tinha acabado de fazer uma viagem de 24
horas de ônibus de linha, de Fortaleza a Belém,
e eu ficava imaginando "... disco de ouro,
100 mil cópias vendidas, cara isso aqui que é o
sucesso? É a maior mentira então aquele
negócio de glamour, de viajar de
jatinho..." Na verdade, até agora não
rolou. O sucesso no Brasil é bem isso. Se você
não trabalha, é disso pra muito menos ainda.
Tendo clareza no seu trabalho, é bem
interessante. Em relação a dinheiro, eu pensei
que o dinheiro fosse entrar na minha conta a
partir de "Lavô Tá Novo", quando a
gente ganhou o primeiro disco de platina. Na
verdade, ele começou a entrar em meados do ano
passado. O dinheiro tava na casa do empresário.
A gente trocou de empresário e o dinheiro
começou a aparecer cinco anos depois.
Vocês tem noção de que o
Raimundos não precisa
mais correr atrás de gravadora com demo tape na
mão?
Cara, eu sei que
hoje qualquer gravadora gostaria do Raimundos.
Mas, a gente tá colhendo frutos do trabalho de
anos atrás. A gente deixou de ser seduzido por
propostas de gravadoras no início e ralamos esse
período todinho e chegar agora e ter toda essa
recompensa, de não ter que impor o repertório
à apreciação de outras pessoas. Todo o
histórico da gente facilitou, de uma banda que o
primeiro disco independente vendeu 100 mil
cópias, fez com que o nosso contrato não fosse
um contrato padrão dentro de uma gravadora. É
uma banda que pode se gabar de ter um contrato, a
divulgação discutida entre o nosso escritório
e a banda.
Por que vocês acham que não se
forma uma cena independente
no Brasil? Tem banda, tem público, mas a coisa
não anda ...
Tem todo o ranço
da gravadora que a cena independente não
consegue admitir isso, sacô? Tipo, o ponto que
uma major teve mais próxima de uma cena
independente foi na época do Banguela. Acho que
não se repetiu o evento Banguela no Brasil. Pela
primeira vez, rolou uma parada de brodagem, a
parada rolou por causa de um consenso, as pessoas
tinham que fazer alguma coisa por aquela cena que
tava ali forçando a tampa. O próprio meio
independente tem um ranço do que pode crescer.
Vai acabar rolando, quando a cena se torna
expressiva suficiente, ela arrebenta com tudo,
arranca a tampa toda.
Vocês acham que o fato da
maioria das bandas da
cena alternativa cantarem em inglês atrapalha?
É opção. A
gravadora daqui só vai se interessar se a
gravadora lá de fora quiser encontrar alguma
coisa aqui dentro que seja em inglês ou então
ela não vai ter interesse. Essas gravadoras
grandes dificilmente elas vão contratar alguém
que cante em inglês para trabalhar no mercado
nacional. Isso é claro e evidente. Eu lembro
até quando a gente chegou em São Paulo pela
primeira vez, as pessoas olhavam pra nossa cara e
perguntavam: "Por que vocês cantam em
português?" Você pode criar uma sonoridade
legal em inglês, mas a mensagem é o que vale. A
pretensão inicial do Raimundos não era tocar
lá fora. O nosso objetivo sempre foi fazer
sucesso no Brasil. Buscar a sonoridade na sua
língua natal é que é o desafio, é que é o
legal.
Vocês fizeram uma crítica com o
lance dos pagodeiros, com a mídia.
Como vocês vêem o ciclo da música brasileira,
onde a mídia dita
as regras e os estilos não duram nos meios de
comunicação?
O sarro não foi
nos pagodeiros. Poderia ser nos sertanejos. Só
que o Raimundos tem quatro e o sertanejo,
geralmente, é uma dupla. A gente tirou um sarro
na mídia em geral, como formação que existe
quatro pessoas na banda, a gente não podia posar
de dupla ou de banda baiana que, geralmente, tem
uma loira e uma morena que dançam, foi por um
problema de formação. Então, a gente pegou um
grande ícone dos anos 90, que é o pagode, e
isso é inegável, e a gente pegou pra fazer uma
crítica à mídia. É o caso da letra da
"Mais Pedida", será que você vai ter
que se vestir de alguma forma pra ser bem aceito
nas rádios, na televisão? A crítica foi bem
aceita, apesar de não ter sido bem entendida.
E sobre as bandas que aceitam
mudar a sonoridade,
o visual só pra aparecer na mídia? Vocês não
fizeram isso...
É uma questão de
incoerência nisso. As pessoas que escutam rock
falam: "Pô, só tem espaço pra pagode, pra
axé..." , aí quando dão o espaço pro
rock e as bandas ocupam esse espaço, as pessoas
começam: "Ah, eles fazem rock, não
deveriam estar nesse programa!". Na hora que
dão a liberdade pra se escolher o que é bom e o
que é ruim, as pessoas correm. Tudo é feito por
oportunidade porque as pessoas não gostam só de
música baiana ou só de sertanejo. As pessoas
não tem nem a oportunidade de saber se o rock é
bom ou ruim. Isso, a gente preencheu essa lacuna.
Também forçou uma situação, porque antes só
tinha o Programa Livre com música ao vivo, aí
começou um monte de programa colocando música
ao vivo. Ainda existe o canhestro playback, mas
já tem a opção de ver uma banda tocando,
rolando microfonia, tocando banda que nem tem
disco ainda.
Vocês já tocaram aqui outras
vezes em festas de rock e hoje
vocês vão tocar num evento agropecuário. Isso
é normal pra vocês?
É normal. E tem
mais uma coisa, o mercado de feira é o melhor
mercado que tem, é o mais honesto que tem.
Aquele público que não tem dinheiro pra ir ao
show de boate ou de festas onde pagaria R$ 20,00
ou R$ 25,00, aqui paga menos de R$ 10,00. Quem
não tem grana e quem tem grana vai. É a forma
mais democrática de se fazer um show.
Voltando à relação dos
independentes com o mainstream, das disputas, do
independente ser abosrvido pelas majors, de como
os alternativos se vendem facilmente. Como
exemplo teve o Abril Pro Rock que começou na
mesma época do Juntatribo e agora teve um monte
de banda das majors...
Tem aquele ranço
do não poder crescer. Mas tem como crescer sendo
independente, só que o crescimento dentro do
mercado independente parece que é uma coisa
prejudicial e não é. É por isso que sempre vai
ficar com essa mentalidade muito pequena. Crescer
não é vergonha pra ninguém não. Também tem
aquele negócio de integridade. Nós damos
graças a Deus por estarmos na Warner e por eles
sempre darem liberdade de criação pra gente.
Por a gente Ter vendido um disco de ouro num selo
independente, eles pensaram: "Esses caras
tem um público, então não vamos estragar
isso..." Eu lembro no "Lapadas do
Povo" que foi um disco que, naturalmente,
teve menos palavrão e os caras da gravadora
"Pô, vocês estão pegando leve?". A
palavra independente deve vir quando ela
realmente existir, não adianta a gente gritar:
"Eu sou independente!" e ficar se
fudendo. Quando a gente for realmente
independente, aí a gente vai ser independente.
Agora a gente cresce e precisa da mídia, mas
quando a gente tiver público suficiente pra não
precisar de ninguém, a gente pode ter uma
gravadora e fazer as coisas nós mesmos, porque o
que dá apoio é a galera. É usando os meios que
o sistema oferece pra tentar passara sua
mensagem.
Pra encerrar, acho que o Fred
não vai lembrar, mas no Juntatribo estávamos
sentados eu, o Fred, o Carneiro do Mickey Junkies
e o Giovani da Low Dream...
Fred - Que
bandidagem! (risos)
...Nós estávamos falando sobre
esses lances de gravadoras e o Fred falou que
não agüentava, que era muita ralação,
pressão, que queria gravar o primeiro disco que
era o sonho dele e que depois ia largar tudo e
cuidar da vida dele...
Antes do primeiro
disco você corre, corre, corre atrás. Você
escuta coisas de gravadoras que você gostaria de
não escutar, tipo "Ah, vocês poderiam
mudar o som..." , milhões de coisas
absurdas. Num certo momento, a vontade é
exatamente essa. Se for pra mudar , que seja
assim, grava o primeiro disco e tchau. Mas, com a
gente começou a acontecer umas coisas que deram
credibilidade pra gente fazer um trabalho e
seguir isso. Hoje, mais que nunca a gente tem
essa liberdade e a certeza de um próximo
trabalho e um próximo trabalho e um próximo. O
que aconteceu foi que numa reunião com uma
gravadora que queria mudar o nosso som, a gente
levantou e foi embora. Se não fosse o Banguela
na época, a nossa banda seria outra.
(Maringá,
maio de 2000)
Andhye
Iore
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