ROCK REGIONAL
Curitiba, a cidade que inspira rock
Iniciativa, criatividade e suporte são os responsáveis pela agitação musical curitibana

Texto e fotos: Andye Iore, julho 2002


Wlad, do Catalépticos: ralação no Brasil, reconhecimento na Europa e EUA

Há muitos anos que Curitiba tem uma produção cultural independente efervescente. Curiosamente, poucos artistas conseguem fazer sucesso, com a maioria ficando fadada ao restrito circuito alternativo.

Essa agitação é maior na cena musical. A capital paranaense forneceu as bandas mais criativas dos palcos do undeground brasileiro.

Nomes como Missionários e Beijo aa Força nos anos 80 e depois os anos 90 com Woyzeck, Magog, Skijktl, Resist Control, Os Cervejas, July et Joe, UV Ray, Relespública, Boi Mamão, Toby One, entre tantos outros.

É claro, não esquecendo da cena punk e metal que sempre teve forte atuação.

Quem mora na cidade, tem opção durante toda a semana. Quem visita, não consegue descobrir nem metade das opções. Pode se dizer que os curitibanos tem mania de música. Os shows acontecem até em bares minúsculos, onde não cabem nem 50 pessoas.

Através dos anos, os pontos de encontro ficam tão lendários quanto as bandas. Lugares como Lino’s, Hermes, James e 92 Degress – só para citar os mais conhecidos – são sinônimos de balada garantida e muita história pra contar.

F R I O

O que motiva toda essa produção? Além do clima frio e úmido – referência a Londres, outra cidade roqueira – Curitiba sempre teve espaço para shows, apoio da prefeitura, programas de rock, estúdios para gravação e imprensa especializada. Tudo bem acessível aos músicos.

"A impressão que dá é que o povo aqui é meio que movido de acordo com a estação do ano. Ou seja, no verão ninguém faz nada e quando começa a esfriar, neguinho surge das trevas com dois, três discos duma vez e começa a rolar shows direto.", explica André Sakr sobre a movimentação entre as bandas da cidade.


Norberto Pie, do Skjiktl e Aaaaaamalaencarada: bandas legais com nomes estranhos

André é uma espécie de agitador cultural. Além de tocar em bandas, também organiza shows.

Outro que segue a linha "colocar lenha na fogueira" é o jornalista Abonico Smith, que está atuando também na Fundação Cultural de Curitiba, que tem apoiado os eventos culturais.

Além de promover shows, a instituição colabora com o lançamento de cds. Um dos títulos mais bacanas lançado com esse apoio foi uma coletânea comemorativa de dez anos do Espaço Cultural 92 reunindo 20 bandas da cidade.

Mas, outros dois eventos organizados pela Fundação e que devem acontecer nos próximos meses, é que estão criando uma grande expectativa no cenário da cultura pop. Um é a vinda do escritor britânico Nick Hornby, autor de "Alta Fidelidade".

O outro é o show com a banda escocesa Gentle Waves, de Isobel Campbell (ex-Belle & Sebastian"). De brinde, o Gentle Waves deve vir acompanhado do Snow Patrol, grupo que conta com músicos do Belle & Sebastian em sua formação.

C I C L O

Como uma coisa leva à outra, o ciclo se renova. Com isso, a noite curitibana é preenchida pela música eletrônica, pelo punk, pelo alternativo, pelo metal, pelo blues e, é claro, pela movimentada cena psychobilly.

Curitiba é a cidade que preserva a tradição dos topetudos. Depois de São Paulo, a capital paranaense foi onde mais surgiu bandas de psycho. Há até festivais do gênero, onde o público pode conferir nomes consagrados, como conhecer novas bandas.

Foi o que aconteceu no final de semana passado, na oitava edição do Psychobilly Fest no tradicional porão do 92 Degrees, capitaneado pelo incansável JR, que há mais de dez anos toca em bandas, organiza shows e lança discos por gravadora independente.

É desse meio a banda curitibana que mais tem repercussão no momento. Os Catalépticos já tocaram em festivais na Europa e Estados Unidos. O trio tem na formação dois músicos que vieram de bandas clássicas da cena. O vocalista e guitarrista Wlad, tocava nos Cervejas e o baixista Gustavo era do Missionários.

Depois da saída de Márcio Tadeu (também ex-Cervejas), o baterista Coxinha assumiu as baquetas e a banda iniciou uma rápida ascensão sem precedentes na história do psychobilly brasileiro. "Ter um lugar pra ir, encontrar os amigos, falar da música que você gosta e ver as bandas é fundamental.", explica Wlad, dos Catalépticos, ao apontar o motivo de Curitiba ter tantas bandas e shows.

R E N A S C I M E N T O


Bad Folks: músicos experientes, banda nova e som legal

Já o meio indie ensaia um renascimento. A cidade que sempre revelou boas bandas de rock alternativo nos anos 90, ficou meio opaca no gênero ultimamente. Eis que em 2002, os indies atacam com força total.

Festivais e discos pipocam por Curitiba, com um detalhe muito importante. Hoje, a variedade é a grande característica do que antes era apenas uma cópia das bandas da moda na Inglaterra.

Assim, o público pode conferir os estilosos do OAEOZ, o pop delicioso das Criaturas, o surpreendente folk dos Bad Folks, a criatividade do Volume, a energia do Aaaaaamalaencarada (é, o nome é assim mesmo!... coisas do "visionário" Norberto), a experimentação eletrônica do ESS e muito mais.

Não é à toa que a banda Wry escolheu Curitiba para abrir sua turnê "I Love & Hate You Brazil Tour", na volta ao Brasil. Curitiba inspira rock. Podia ser respira, mas o comportamento frio e estranho do público em não agitar durante os shows, mantendo uma certa distância do palco e o fato da farta produção, mal sair da cidade, caracteriza a cena como instrospectiva.

PRODUÇÃO

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