SNOOZE

ENTREVISTA

Andhye - Qual a importância pra vocês tocarem num festival fora do nordeste?

Fabinho – Bastante importante porque a gente mora longe dos grandes centros. Então, é difícil se juntar com várias bandas legais. É improvável isso acontecer lá. Tem mais punk rock ou hard core. Então, a gente faz mais shows sozinhos, a gente produz os próprios shows.
Rafael – É uma forma de atualizar o público. De uma só vez, estamos com material aqui pra divulgar pros promotores, pros fanzines, pras outras bandas. Também dá pra ver o show da ente como é que tá agora. É mais que mandar por correio.

O fato da distância entre os estados brasileiros
é um dos maiores problemas pras bandas alternativas?

Clínio – Existe outras coisas, como estrutura. É tudo do próprio bolso, uma pessoa que rala fazendo.
Rafael – O mercado é pequeno, segmentado. Tem gente que escuta este tipo de música no país todo e compra disco, mas é um número muito pequeno ainda. Até apoio da imprensa, tem um pouco de preconceito. Se lançasse e vendesse pra caramba, seria natural ter uma estrutura. As pessoas dependem muito de informação de FM e televisão e aí rola outros estilos musicais.

A banda passou por mudanças e amadureceu.
Como vocês conceituam a Snooze hoje?

Fabinho – Hoje tá mais rock, tem outro guitarrista. Ficou mais coeso e um pouco mais pesado sem perder as características que já tinha. É pop com melodias agradáveis de se ouvir e são assobiáveis.
Mauro – Pra determinar o som da banda hoje, até entre a gente é difícil. O Rafael falou que é uma banda pop. Eu já considero mais undergorund. E o Fabinho falou que está mais rock.

E como é a influência no trabalho de vocês?

Fabinho – A gente gosta das mesmas coisas, mas todo mundo ouve coisas diferentes.
Rafael – A gente tá sempre passando cd um pro outro.
Clínio – No geral, a gente gosta muito de som psicodélico. Muito anos 60.

E qual é a importância da internet no trabalho de vocês?

Rafael – Eu sempre cuidei dos contatos. Era muito ativo no começo da década e teve uma hora que não deu mais por questão de tempo e dinheiro. A gente praticamente sumiu depois do disco, em 1999, porque eu já não tava respondendo carta. Já cheguei a receber dez cartaz por dia. Hoje, não recebo nem cinco por mês. Então, a internet é uma coisa recente pra gente. Se não fosse isso, seria difícil tá divulgando a banda. Por exemplo, foi através de e-mail que veio o convite do Circadélica. Hoje, a banda que não tiver uma página perde muita coisa. Eu não gosto muito de computador, faço por causa da banda.

E a questão mercadológica?

Rafael – A gente pensa nisso. Mas, para viver da banda, acho difícil. Pra manter ativa e divulgando. Pra viver da Snooze eu não consigo enxergar isso nem daqui há dez anos. Tomara que um dia possa.
Clínio – É difícil até pra gente ensaiar mesmo. Todo mundo estuda e trabalha.
Rafael – Hoje em dia, pelo menos, a banda se banca. Os ensaios a gente não tira do bolso. Tem os cachês dos shows que a gente produz. Pra bancar um disco é bem devagarzinho, um ou dois anos pra ir gravando e pagando.
Fabinho – É um hobby levado a sério.

Qual a origem do nome?

Fabinho – Foi por acaso, no n;ivel dicionário. A gente viu "snooze" e achamos legal a tradução. A gente gosta de dormir.
Rafael – Todo mundo gosta de dormir e o nome é sonoro, fácil. Não há nenhuma mitologia por trás disso.

E como é o meio alternativo em Aracaju?

Fabinho – Tem muita banda cover...
Clínio – ... é uma merda! (risos)
Rafael – Quando perguntam da cena local, eu nem cito isso porque existe em qualquer lugar e eu nem considero.
Clínio – É um público que deixa de ver show de rock e vai ver banda cover. Existe gente que faz um som guitar, existe punk rock...
Rafael – Hard core hoje tem várias. Tem de heavy também.
Fabinho – A Snooze, em Aracaju, agrada a vários públicos. É metaleiro, agrada a galera alternativa, os "popzão" que vão pra boate só pra beber cerveja.
Rafael – E a gente divulga o que acontece com a banda fora de lá e as pessoas dão mais valor por isso.
Clínio – Como a cena é pequena, a gente faz show com banda de heavy metal e rola respeito por ser pouca gente.

Há espaço na mídia para divulgar?

Rafael – Tem apenas duas lojas e jornal é aberto. Tem o programa de rádio "Playground".

Qual a opinião de vocês sobre a discussão em torno
das bandas brasileiras que cantam em inglês?

Rafael – Eu fico pensando... esse papo já passou. Mas, não tem jeito não. Vai sempre existir!
Mauro – No Brasil, o pessoal tem muito preconceito.
Rafael – O festival Circadélica mostrou aí que o pessoal não tá ligando muito se o som é em português ou inglês.
Fabinho – Eu não tô nenhum pouco preocupado com isso. Se rolasse de compor em português, seria massa. Mas, não rola. A gente gosta de fazer música em inglês. A coisa boa é a música.
Mauro – No próximo disco, a gente canta em russo (risos) O mercado hoje em dia, está mais pras bandas que cantam em português.
Rafael – O Astromato é a primeira banda a fazer guitar em português, sem descaracterizar. Eu gostei. Achava que era impossível. Eles provaram que não, parabéns! O que acho legal é que dá uma diversidade. Se todo mundo fazer igual ao Astromato, qual é a graça que tem?
Fabinho – A gente não tenta calcar nosso som em alguma banda, tipo "A gente é fã de Velvet, então vamos fazer um som bem Velvet." A gente faz o som da gente mesmo e criou esse som cantando em inglês.
Rafael – A gente ouve esse som desde moleque.
Mauro – E a gente se diverte fazendo isso.

Andhye Iore, junho/2001

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