ANGELITOS
A
série "Angelitos" foi uma das sessões
mais disputadas e
animadas da 24º Mostra Internacional de Cinema
de São Paulo.
Com 41 anos, o
português Humberto Santana faz questão
de frisar sua adimiração pelo trabalho do
brasileiro Angeli. Sua iniciação aos cartuns se
deu depois de abandonar a faculdade de filosofia
para se dedicar ao curso de pintura. Depois de
concluir este curso, passou a trabalhar com arte
gráfica e, em seguida, com cartun, chegando à
animação. Humberto Santana é um dos pioneiros
em Portugal e tem se preocupado, ao longo de mais
de dez anos, com uma produção contínua.
"É uma luta difícil, é preciso tempo para
que as pessoas se acostumem com animação.",
explica o diretor. "Principalmente pelo
custo, porque é muito caro fazer animação em
Portugal."
Fazendo sua
estréia na 24º Mostra Internacional de Cinema
de São Paulo, a série "Angelitos"
é formada por 60 episódios de um minuto cada e
traz as personagens mais famosas de Angeli.
Exibidos em forma de vinhetas com duas
personagens diferentes em cada parte (cada uma
com 30 segundos), as animações são versões
das tiras com uma qualidade impecável de cores,
áudio e movimento. "Angelitos" foi um
dos filmes exibidos no processo digital na sala
UOL, a primeira sala de cinema da América Latina
a contar com um equipamento digital.
Feita para a
televisão e inicialmente planejada para ter 120
episódios, Santana explica que a primeira série
de "Angelitos" foi finalizada com 60
episódios. "Um dos co-produtores, que
era responsável pela finalização da
animação, fechou sua empresa e tivemos que
finalizar em nosso estúdio, a Animanostra.",
esclarece.
"Angelitos"
teve sessão lotada na mostra, com várias
pessoas sentadas no chão e outras ficando para
fora. Quem entrou, se divertiu bastante com o
machismo de Bibelô, o saudosismo de Wood &
Stock, as profecias do guru Rhalah Ricota, o
convencimento de Walter Ego, o incontrolável
Osgarmo, os revolucionários Nanico e Meia Oito,
a cara-de-pau dos Skrotinhos, as verdades cruéis
de Love Stories e a nostálgica Rê Bordosa.
Infelizmente, nem todos os episódios foram
exibidos porque o equipamento esquentou demais e
travou, faltando poucos episódios para acabar o
filme. Incovenientes da tecnologia. Porém, foi o
suficiente para a constatação, mais uma vez,
que os talentos brasileiros são mais
reconhecidos fora do Brasil. É bem provável que
"Angelitos" seja exibido na tv
brasileira, já que a série teve co-produção
da Tv Cultura. É torcer e esperar.
O diretor Humberto
Santana, com muita simpatia e atenção, atendeu
Andhye Iore no hall do hotel e concedeu uma
entrevista ao maringa.com:
Maringa.com
- Como você conheceu o trabalho do
Angeli?
Humberto
Santana - Há alguns anos, chegaram a
Portugal algumas revistas do Chiclete Com Banana.
Eu ainda não fazia animação, mas gostava muito
de banda desenhada, que vocês chamam aqui de
quadrinhos. O trabalho do Angeli me fascinou. De
lá para cá, tenho tentado seguir de todas as
maneiras, o trabalho dele seja da Folha de São
Paulo ou de revistas antigas que eu consigo. Mais
tarde, em 91, comecei a trabalhar com animação.
Em 97, tive a oportunidade de contactar o Angeli.
Fiz a proposta de produzirmos uma série, ele
aceitou e assim chegamos aqui.
Como você conheceu o Angeli e
como ele reagiu à idéia da animação?
O conheci por
voltade 97 a 98. Ele adorou a idéia e
disponibilizou-se a ajudar no que fosse. Para
fazer a série em animação, precisávamos de
referências dos personagens, dos designs, porque
para fazer a animação, só as tiras não era
possível desenvolver e ele se dispôs a fezer
isto.
A internet tem
possibilitado uma nova forma de cartun, que é
justamente o cartun animado. Você tem acompnhado
esse estilo de cartun na internet?
É fantástico. É
uma nova possibilidade que se abre para os
cartuns. O Flash 4 já é um grande passo. Creio
que nos próximos anos, essa mídia vai se
desenvolver bastante. Provavelmente, a banda
deverá alargar um pouco porque as animações
demoram para carregar, o que torna desmotivante
para muita gente. Creio que o desenvolvimento de
novos softwares e com o alargamento da banda, a
animação encontrará uma mídia ideal para seu
desenvolvimento.
Você já
trabalha com cartun via internet?
Não, ainda não.
A empresa onde trabalho está planejando
desenvolver um trabalho dedicado à internet.
Até agora, temos trabalhado só para televisão
e cinema. Porém, já entendemos que a internet
tem um grande potencial de desenvolvimento e
vamos começar a trabalhar nisso também.
Além do
Angeli, você conhece o trabalho de outros
cartunistas brasileiros?
Gosto muito do
Laerte, não lembro o nome do artista mas gosto
das tiras do Níquel Náusea...
É o Fernando
Gonsales...
Gosto muito dele,
porque também chegaram algumas revistas em
Portugal do "Piratas do Tietê" e do
"Níquel Náusea". Não conheço
também, mas gostei do trabalho do Adão (N.R.:
o gaúcho Adão Iturrusgarai, que publica tiras
na Folha de São Paulo) e o outro que faz o
"Geraldão"...
O Glauco...
Sim, Glauco, acho
bastante graça nestes trabalhos.
Em Portugal,
esses artistas são conhecidos ou o trabalho
deles é mais restrito?
São muito
conhecidos, bastante admirados. Principalmente o
Angeli. Antes de vir para São Paulo, tive
contato com um editor que deve lançar uma nova
revista em Portugal onde o Angeli terá um lugar
de destaque. Creio que a revista se chamará
"Chiclete Com Banana".
Como são os
cartuns portugueses?
É diferente.
Porém, os quadrinhos de Portugal tem um problema
um pouco semelhante ao Brasil. Não existem
revistas que durem. As revistas aparecem, duram
um ano, dois anos e acabam. Não deu para
desenvolver o hábito dos quadrinhos em Portugal.
Existem pessoas que se dedicam a isso, mas não
é um trabalho consistente. Por outro lado, há
um trabalho que tem mais a ver com a televisão,
de animação. Enquanto no Brasil, os quadrinhos
tem mais a ver com o estilo americano, em
Portugal tem mais a ver com o estilo europeu de
animação.
Para você,
qual a importância cultural, social e política
dos cartuns?
O cartun da piada,
como o Angeli e o Laerte trabalham, tem muita
força em termos de crítica social. Mesmo que
não foque de uma forma direta os problemas
políticos e sociais, indiretamente tem muito a
ver. Serve também para a formação da
consciência das pessoas, dos leitores. Eu
considero o humor uma arma terrível, é uma arma
que tem muito mais força que os discursos que
incidem de uma forma direta sobre os temas. O
humor corrosivo, como o do Angeli que, apesar de
ser esterotipado, consegue definir largas faixas
da população, tem uma importância crítica
muito forte. Culturalmente, sem dúvida é
importante porque é uma arte tão nobre quanto
qualquer outra arte e eu, claro, considero muito
mais o cartum.
Você falou que
alguns cartunistas brasileiros são conhecidos
lá. Vocês tem acesso fácil a material de
quadrinhos de outros países?
Sim, material
importado temos acesso fácil. Traduções não
existem muitas, mas há edições portuguesas de
quadrinhos importantes.
Você conhece
animação japonesa e americana?
Sim (empolgado)!
Gosto bastante de animação japonesa,
principalmente o mangá para cinema e não para
televisão que é mais limitado. Tenho
acompanhado os filmes que saem e a obra de
referência, sem dúvida, é o "Akira".
Em Portugal
também tem a febre dos Pokémos?
Tem. Os
"miúdos" andam loucos por Pokémon e
agora surgiu o Digimon. Tudo que tem Pokémon,
onde aparecem os bonecos, eles querem comprar. É
um fenômeno sem dúvida. É um pouco
compreensível porque são personagens tão ricos
em merchandising. Daqui para frente, toda
animação que surgir vai explorar isso porque é
um mercado enorme.
Qual a sua
opinião sobre isso, você acha que é uma
influência ruim para as crianças porque tem
muita violência?
Não,
particularmente não acho. Eu discordo um pouco
do discurso de censura da violência nos desenhos
animados. Acho que as crianças precisam disso e
faz parte do seu desenvolvimento. Evidentemente,
se as crianças não são acompanahdas, não tem
uma face educativa da parte dos pais, isso pode
influenciar negativamente. Se esse acompanhamento
existir, creio que é inofensivo. Os desenhos
animados não vão influenciar negativamente as
crianças.
Qual a sua
expectativa para a exibição de seu filme aqui
na Mostra?
Estou bastante
curioso. Estou bastante reticente porque os
filminhos foram feitos para serem passados um a
um, cada episódio de um minuto. E vão passar 60
de uma vez. É um pacote um pouco pesado, que
pode cansar porque os filmes não tem uma
linguagem que agüente 60 minutos seguidos. Estou
na expectativa para ver qual é o resultado.
Andhye
Iore
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