ANIMAÇÃO

Grosseria divertida
South Park é mais um dos filmes politicamente incorretos a invadir as salas de cinema

Apesar de ser um desenho, South Park não é infantil. A série da televisão estreou em agosto de 1997, está na terceira temporada e já rendeu boas discussões quanto à moral, influências agressivas nos adolescentes, ofensas à religião, política e minorias raciais. Mas, o filme South Park: Maior, Melhor e Sem Cortes (South Park: Bigger, Longer & Uncut - 1999 - Paramount/Warner) foi mais longe. Ou melhor, é mais ofensivo aos bons costumes aparentes. Estreando no dia 30 de junho nos cinemas americanos, o filme foi bem nas bilheterias e rendeu o triplo de seu custo. Não dá para negar que o estilo de humor seja extremamente engraçado, apesar do teor ofensivo. É o melhor exemplo para o conceito politicamente incorreto.

No filme, os quatro garotos de South Park, Stan, Kyle, Kenny e Cartman, vão assistir a um filme no cinema, chamado "Bundas Flamejantes" ("Asses of Fire" da dupla Terence and Phillip, um desenho dentro da série South Park. Assim como Comichão e Coçadinha, dos Simpsons. Só que depravado). Com medo de que seus filhos possam seguir o caminho de Cartman e cia, os pais de South Park resolvem fazer uma campanha contra o filme. Isto estimula uma reação violenta da comunidade, que leva à censura no país, que leva à uma guerra e que traz o príncipe das trevas à Terra devido ao caos. Além de colocar o quarteto lutando pela liberdade, o filme ainda mostra Sadam Hussein e o Capeta como namorados gays.

POPOSUDA

Segundo os autores, Trey Parker e Matt Stone, o filme é sobre a opressão contra a liberdade de expressão. E, nada mais eficiente que atacar a censura. A MPAA, órgão que controla a censura e determina a faixa etária dos filmes nos cinemas americanos, vetava uma cena do filme e Parker e Stone voltavam com algo mais ofensivo ainda. Assim, a MPAA se via obrigada a liberar a cena anterior.

Antes de acusar o filme, é bom pensar em algumas mensagens que os criadores quiseram passar: a falta de comunicação entre pais e filhos é a responsável por muitos problemas sociais e que a hipocrisia da política e religião deixa assuntos sociais importantes de lado para ficarem criticando produções artísticas. Isto cai como uma luva no Brasil, onde as crianças podem assistir a programas como o da Xuxa, com meninas em roupas sumárias e linguagem chula como "Mexe poposuda!", mas não podem assistir a um desenho crítico como South Park.

Curiosidades: apesar de toda a ofensa apresentada no filme, a música "Blame Canadá" da trilha sonora foi indicada para concorrer ao Oscar; a origem de South Park foi de um curta de animação onde o menino Jesus e o Papai Noel brigavam pela posse do feriado de Natal; Trey Parker e Matt Stone além de fazerem as vozes das personagens, também dirigiram e produziram o filme.

Desenho diverte até na música
CD de South Park teve uma canção indicada ao Oscar

É verdade que o desenho South Park incomodou muita gente, mas não dá pra negar que foi uma das coisas mais engraçadas já feitas para o cinema nos últimos anos. Por mais que alguém possa achar ofensivo uma piada do filme, é impossível segurar as gargalhadas. E, muitas dessas risadas são dadas devido às músicas.

Com 20 canções, a trilha sonora funciona muito bem sem o filme. Porém, quem assistiu vai lembrar das aventuras de Eric Cartman, Stan Marsh, Kenny McCormick e Kyle Broflovski com muito humor e vai se pegar rindo sozinho.

É importante salientar que os criadores de South Park, Trey Parker e Matt Stone, não fizeram um desenho para chocar as pessoas, mas sim criticar a hipocrisia social e quem vive de aparência. Logo na primeira música, "Mountain Town", a South Park é apresentada como uma cidadezinha pacata do interior onde as pessoas são felizes e o sol aparece todas as manhãs. Porém, os garotos precisam ir ao cinema assistir a filmes que ensinam as coisas boas que os adultos escondem. "Blame Canada" concorreu ao Oscar de melhor trilha sonora e é mais uma crítica às aparências do "american way of life". As mães de South Park apontam vários problemas sociais americanos, mas preferem colocar a culpa no Canadá.

A principal característica do filme, PPM (palavrões por minuto), está presente em duas músicas com uma sonoridade animada. "Uncle Fucka" é o hit do disco e é impossível não sair do cinema sem assobiá-la. É cantada pela dupla Terrence & Phillip, o desenho preferido dos meninos de South Park e começa a partir de um dos inúmeros insultos que os dois trocam. Depois que um ofende o tio do outro é Uncle Fucka pra lá e pra cá, com gargalhadas exageradas. A música é um dueto fedido (infelizmente, você vai ter que assistir ao filme para entender isso). Com "Kyle's Mom's a Bitch", o desbocado gorducho Cartman elogia a mãe do amigo Kyle com palavrões absurdamente inventados, o que rendeu um selo de Parental Advisory na capa do cd, alertando os pais que o disco tem "conteúdo agressivo".

O amor também tem vez na trilha sonora. O romance mais absurdo da história do cinema tem duas canções. Na melancólica "Up There", satã está reclamando da solidão do inferno por seu amante Saddam Hussein (o próprio!) não ligar para seus sentimentos e só quer saber de sexo. Então, o diabo gay (!) fica imaginando como deve ser boa a vida "lá em cima". Em "I Can Change", com um ritmo meio árabe meio latino, Saddam, totalmente cafajeste, dá uma de marido arrependido e diz que vai mudar seu jeito de ser para que satã não o abandone, alegando que é tão mal devido à sociedade.

Outra piada sexual é com a música "I'm Super" num ritmo de cabaré, onde a letra mostra que as pessoas estão morrendo enquanto bombas explodem, que os políticos mentem e que o câncer mata cada vez mais. Mas, tudo fica bem quando se é gay, porque os gays são alegres o tempo todo.

Além das 12 canções do filme, o cd traz ainda mais oito músicas de bônus interpretadas por astros do rock e rap, ao melhor estilo Saturday Morning. Mesmo quem não entende inglês, vai gostar deste disco porque as músicas tem ótimos arranjos de orquestra (ao contrário dos desenhos mal feitos de South Park) e, é curioso notar que algumas músicas lembram o vocalista Olga da banda Toy Dolls. Isto porque os diretores Trey e Matt fazem todas as vozes das personagens com efeitos engraçados.

Depois que os desenhos da Disney consagraram o estilo "música para crianças abobadas" em suas trilhas sonoras, South Park não só é um filme contestador como tem uma trilha inteligente e agradável.

SERVIÇO:

Cd da trilha sonora do filme South Park - Bigger, Longer & Uncut. Duração: 20 músicas, 50m23. Gravadora: Warner. Preço: R$ 23,00 (média).

Andhye Iore

QUEM É QUEM
Conheça as personagens do desenho:

Kenny McCormick – Com seu moletom vermelho cobrindo quase todo o seu rosto, Kenny tem uma fala que só os outros três entendem. Sua família é muito pobre e Kenny morre de maneira absurda em todos os episódios.

Eric Cartman - é o gordinho filho de uma mãe solteira e é o mais mal-humorado da turma. É vítima de piadas devido ao seu peso. Usa blusa vermelha, touca azul clara e amarela e luvas amarelas.

Stan Marsh – é o líder da turma e é apaixonado por Wendy. Mas, sempre que ela está por perto, ele vomita. Usa blusa vermelha, touca azul e vermelha.

Kyle Broflovsk – é o mais inteligente da turma. Como o humor crítico e debochado rege o filme, Kyle é judeu. Ele sequer faz idéia do que é isso. Usa blusa laranja, um chapéu verde e luvas verdes.

Chef – O cozinheiro é negro e é o mentor do grupo. Além de dar conselhos, Chef ainda resgata os garotos quando estão em perigo, é mulherengo e canta. A voz é feita pelo compositor Isaac Hayes.

Mr. Garrison – é o professor da escola. Tem problemas psicológicos e um boneco de marionete que sempre faz comentários durante as aulas. Garrison acredita que o boneco, Mr. Hat, tem vida própria.

Wendy Testaburger – é a garota mais sexy da escola.