BATMAN
O Cavaleiro das Trevas 2 - o
melhor gibi do ano
Ouve um momento em que tudo
parecia acabado para a indústria norte-americana
de quadrinhos. Era a década de 80 e as coisas
não iam bem: personagens pueris, roteiros
beirando o ridículo, forte censura interna e
nenhuma ousadia. Então, duas obras deixaram tudo
de cabeça para baixo: Watchmen, de Alan Moore e
Dave Gibbons, e Cavaleiro das Trevas, de Frank
Miller, que ganha agora sua tão esperada
continuação.
Em 1986, Frank
Miller terminara seu premiadíssimo trabalho com
o Demolidor, e propôes à DC uma reformulação
em um dos maiores patrimônios da editora:
Batman. O resultado foi um marco na história dos
quadrinhos, dando início a uma nova era. As
quatro edições originais de O Cavaleiro das
Trevas tiveram acabamento de luxo, com qualidade
gráfica até então jamais utilizados em HQs de
super-heróis. Mas era no conteúdo e na
narrativa que Miller realmente dava seu show.
Linguagem
cinematográfica, uso de onomatopéias, trama
absurdamente criativa, design impressionante e
uma abordagem nunca vista deram à minissérie o
status de uma das maiores (senão a maior) HQs de
todos os tempos. Só que depois de O Cavaleiro
das Trevas, Miller brigou com as grandes editoras
e se enfronhou em projetos pessoais como sua
aclamada Sin City. E é lógico que leitores
ficaram rezando e torcendo por uma continuação
da série.
Quinze anos se
passaram até que as preces fossem atendidas.
Está nas bancas de todo o País o primeiro
capítulo de O Cavaleiro das Trevas 2. A ação
se passa três anos após os acontecimentos da
série original. Em um admirável mundo novo,
comandado pelos Estados Unidos, Bruce Wayne
questiona de que vale tudo isso se não existe
liberdade plena.
Disposto a botar
tudo abaixo, ele procura os velhos companheiros
da Liga da Justiça, que foram retirados de
ação pelo Estado. A partir daí, a minissérie
ganha em ações eletrizantes. A seqüência de
resgate de Eléktron é antológica. E o velho
Super-Homem mais uma vez é retratado por Miller
como o escoteiro pau-mandado do Tio Sam.
Comparar O
Cavaleiro das Trevas 2 com a original é
inevitável. As más línguas (como a de Alex
Ross, da Marvel) já disseram que o único
objetivo de Miller era comprar um novo
apartamento. Os comentários são provocados
porque não se vê, agora, o vigor estético
empregado por Miller 15 anos atrás.
Aqui, seus
desenhos não têm o preciosismo do passado,
servindo apenas como fio condutor da história.
As cores de Lyn Varley (mulher de Miller) também
entregam um certo espírito caça-níqueis, uma
vez que ela abriu mão de seu exímio domínio de
aquarelas para utilizar o famigerado computador.
O leitor sentirá falta também de Klaus Janson,
o arte-finalista e velho parceiro de Miller.
Mas não vem ao
caso se O Cavaleiro das Trevas 2 irá ou não
revolucionar como fez a HQ original. O fato é
que ele é, desde já, o melhor gibi do ano - ou
mesmo o melhor em muitos anos. Afinal, Frank
Miller mostra que ainda domina a narrativa e a
linguagem dos quadrinhos como ninguém. É hora
de colocar esses McFarlanes e Madureiras em seus
devidos lugares.
Márcio Jr. é
vocalista dos Mechanics e viciado em quadrinhos
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