CARTUM
"CARTUM - A IMAGEM QUE VALE POR MIL PALAVRAS"

IDEOLOGIA

Como instrumento de crítica, reflexão e formação de opinião, o cartum é um poderoso instrumento. Utilizado para dar uma real interpretação de fatos aparentes, fazer refletir sobre um movimento social, sobre as conseqüências futuras de discurso ou ação, os cartunistas são um importante elo entre os fatos e a consciência social.

Por isso, os cartunistas sofrem censura de três meios diferentes. Dois deles vêm com a história através dos anos. Como vimos na apresentação, com Nero proibindo manifestações artísticas, os militares (com muita ajuda política, é verdade. Ou vice-versa), se tornaram o pavor dos cartunistas quanto à censura. Porém, paradoxalmente, são fontes de inspiração inesgotável de muitos artistas.

O jornal carioca Pasquim foi o maior veículo de comunicação de esquerda que o Brasil já teve. Os cartuns tiveram grande importância na formação desse conceito. Artistas como Henfil, Jaguar, Nani, os irmãos Paulo e Chico Caruso, Ziraldo sofreram represálias pelos cartuns publicados no Pasquim. Num dos inúmeros cartuns de Henfil (figura xx), sem fazer nenhuma referência aos militares, o artista mostra que a insistência em pregar contra o militarismo pode render um melhor futuro para a sociedade, que toda a violência usada pelos militares que fazem de tudo para calar seus opositores.

A perseguição polítca e policial que sofrem os cartunistas se dá devido à utilização de temas importantes no desenvolvimento da sociedade. Assim, os cartunistas trabalham em sintonia com as notícias do dia-a-dia, precisam acompanhar o que acontece como se fossem repórteres. Dessa maneira, o cartunista dá uma outra interpretação ao fato que nem sempre é favorável aos governantes, ao poder.

Mas, o que rende as piadas mais engraçadas é a religião. Apesar de serem perseguidores implacáveis contra quem os critica, os religiosos, seus símbolos, os dogmas e até mesmo Deus é a alegria de muitos cartunistas. No século XVI, durante a reforma do cristianismo, Martinho Lutero foi alvo de vários caricaturistas que o desenharam como tendo parte com satã. Assim, Lutero era visto no mesmo desenho (figura xx) que bichos esquisitos e bestas do inferno.

O finado Henfil também se inspirava na religião (figura xx), para mostrar hipocrisias da igreja. Em tempos atuais, o cartunista americano Gary Larson, com toda sua sutileza, também explora este tema, colocando Deus castigando uma pessoa através de um controle em um computador (figura xx). Deus também é alvo de Jack McLaren e Pat Spacek, do site The Parking Lot is Full, onde o Criador é chamado a atenção por cair sono, mais uma vez, durante a projeção da vida na Terra e deixar uma pessoa desfocada (figura xx). Estes cartuns mostram uma resposta ao fanatismo religioso, onde pessoas acreditam que um ser supremo pode, como num jogo, controlar a vida e o destino da humanidade como se estivesse operando uma máquina.

O caso mais recente de inspiração na religião e censura por parte desta, está na série animada "Deus é Pai", criada pelo quadrinhista, cartunista e designer gráfico gaúcho Allan Sieber. A série, feita em computador com linguagem de cartum, mostra Deus e seu filho, Jesus, nos dias de hoje em constantes conflitos como uma família. A série teve alguns capítulos exibidos pela MTV em julho desse ano e foi tirada do ar depois de um telefonema do arcebispo de São Paulo, Dom Eugênio Sales, que nem chegou a assistir um episódio de "Deus é Pai" para censurá-la. Toda essa censura esconde o medo de ver segredos e falsos preceitos morais revelados à sociedade.

A terceira forma de censura surgiu de maneira curiosa, podendo até ser considerada como um fato isolado. O cartunista americano Gary Larson, um dos artistas best sellers no mercado editorial americano, proibiu a edição de seus cartuns na Internet. Todos os sites que tinham qualquer referência à obra do cartunista receberam uma carta escrita pelo próprio Larson, solicitando a retirada dos cartuns da rede. Como os sites que tinham algum cartum do autor de "Far Side" eram feitos por fãs seus sem ambição financeira, atenderam o pedido. Na carta escrita, Gary Larson termina: "... por favor, mandem minhas crianças de volta para casa!". Um dos sites que insistiu em continuar editando a obra do cartunista, recebeu um comunicado de advogados solicitando a retirada urgente dos cartuns do site. Ao acessar o site, uma única frase aparecia na tela: "Depois de quatro anos e mais de 50 mil visitas, os advogados de Gary Larson me pediram que eu removesse meu site do ar. Não há nada que eu possa fazer, já que não quero ter problemas com a justiça..."

Andhye Iore

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