ELOYR PACHECO

ENTREVISTA

Andhye Iore - Você participou de todos os processos do mercado de quadrinhos. Pra você, quais os maiores problemas e virtudes desse meio?

Eloyr Pacheco - O maior problema ainda é a distribuição. A dimensão do país é muito grande. A gente vem discutindo isso todos os dias, de como aperfeiçoar esta distribuição. Com as tiragens reduzidas, devido a uma oferta maior de número de títulos é cada vez mais difícil sair distribuindo e chegar aos leitores. A grande virtude é a experiência que adquiri desde leitor, como dono de banca e trabalhar na produção. Isto ajudou muito na concepção de um projeto editorial bastante sólido. Essa forma de você estar pensando o quadrinho como um produto de arte, na concepção total. Uma coisa que o Álvaro Moya me ensinou e eu esmpre guardei essa lição: você estuda o quadrinho, analisa ele de maneira técnica. Mas, a última coisa que você faz é perguntar: é isso que o leitor espera de mim, que ele deseja ler? Aí, tendo a visão do leitor e do comerciante, posso fazer isso de uma forma mais fácil e ágil.

Como foi o processo de você sair de Londrina e chegar a dono de uma editora?

Na verdade, o que eu vinha fazendo em Londrina, vinha pensando na cidade. Não tinha a intenção de fazer nada pra me alavancar pra ir prum outro nível da escala produtiva cultural brasileira. Mas, a partir do instante que houve um convite pelo reconhecimento do trabalho que eu fazia, soube agarrar esta oportunidade e com afinco. Trabalhei muito como editor, como secretário de redação pra depois abrir a minha editora. Só que foi muito rápido. Dois anos trabalhando como empregado e aí decidi deixar o que vinha sendo feito pra fazer um projeto meu, com uma visão mais pessoal.

Qual foi o fator determinante neste rápido processo?

As coisas acontecem e você tem que tomar decisões rápidas. Eu sempre fui muito precoce. Sempre digo que a minha crise dos 40 eu tive aos 30. Percebi que o mercado é muito complexo, complicado. Que ele necessitava de alguns produtos para determinados segmentos que não estavam sendo produzidos. Quando você começa a produzir por produzir não é legal. Você tem que produzir pela questão de você ter vontade, de gostar, de ter um conjunto editorial. A partir do instante que isso se perdeu, tive que tomar uma decisão, que foi fazer aquilo que eu quero dentro de uma coisa que é minha.

Muita gente reclama dos preços das revistas no Brasil.
Qual é a palavra do editor sobre isso?

É o fato de você trabalhar procurando ter lucro e continuando seu trabalho ou você trabalha por trabalhar correndo o risco de ter um break even, que seria o ponto de equilíbrio entre o custo de produção e o percentual de venda possível dentro da sua tiragem para colocar a revista no mercado. Como eu penso a longo prazo e continuidade, como tenho uma linha para banca com uma tiragem maior, uma linha intermediária que pega banca e lojas especializadas e uma linha mais restrita que pega só livraria e lojas especializadas, os números de equilíbrio aí são muito estudados. Sempre critico os editores que tem tiragens muito maiores que a minha e acompanham preço que é uma tendência de mercado. Só que os preços que eu faço, não faço pela tendência de mercado. Faço baseado nos custos e no ponto de equilíbrio que acredito que vá ter dentro do percentual de venda na distribuição. É algo simples mas, ao mesmo tempo, muito complexo.

Se eu não vendo o suficiente pra pagar os custos, não tenho como fazer a próxima revista. Assim que tiver condições de ter uma tiragem maior, distribuição mais abrangente, um produto mais popular que venda mais, que é uma ansiedade minha. Por isso que fiz "Ghost & Batgirl" em duas edições e com a volta do formatinho. Por isso que fiz "Planeta dos Macacos", procurando ter títulos mais populares pra pegar um público maior. Se eu tenho "Preacher", "Sandman" e "Hellblazer", isso é tiragem reduzida, com público muito fechado e limitado, difícil de ampliar. Se você tem um título que pode ser colocado de maneira mais popular, o preço tem que ser menor.


Títulos da Vertigo são a especialidade da Brainstore

Hoje, com essa alardeada crise do mercado de quadrinhos, a tendência é os preços estarem nestes patamares que estão. Na Vertigo, acredito que já conseguimos uma vitória muito grande. O "Preacher", em 1997 era vendido a R$ 4,50 a 4,90. Hoje, vendemos ele a R$ 5,50 a 5,90. Esse preço vem sendo refreado. Se você pensar a Metal Pesado em 1997 custando R$ 7,00, hoje você tem o especial do "Preacher", com 56 páginas todo em off set a R$ 7,90. Estamos tentando manter o mesmo patamar de cinco anos atrás. Estamos ignorando completamente a inflação, a questão comercial. Se fosse corrigir pela inflação, com certeza o preço seria o dobro. Se a gente não consegue baixar, consegue refrear.

A Brainstore tem um site, atualmente desativado e que voltará em janeiro.
Qual é a importância da internet no seu trabalho?

A internet hoje é essencial pra divulgação entre os leitores da classe A e B. Temos no Brasil hoje cerca de oito milhões de internautas, que é o público de "Preacher" e "Sandman" que não depende mais do dinheiro do pai e da mãe pra comprar sua revista. A internet facilita isso, de poder fazer tiragens menores e divulgar isso diretamente pro seu público leitor.

E a internet como veículo para os quadrinhos?

Existem várias experiências relacionadas à internet e eu não sei de nenhuma que tenha tido sucesso. Com exceção da "Combo Rangers", do Yabu. Não sei até que ponto ele conseguiu fazer a ponte pra revista em quadrinhos e como foi a aceitação dela nas bancas. Existe o espaço, é um veículo muito importante até pra você lapidar a arte do quadrinho, estar fazendo uma série de experiências que não é possível fazer por questões de custo. De qualquer forma, é uma coisa muito nova porque não tem uma linguagem de animação na internet porque não há processadores suficientemente rápidos pra isso e também não é a linguagem do quadrinho. Tá uma coisa meio híbrida, um meio termo. Há quem diga que, enquanto a página na internet não for instantânea, não tem como funcionar com o leitor, que pega a revista, vai pra frente e pra trás, folheia, vê aquele emaranhado de imagens e na internet não tem essa condição, quebra o ritmo. É download de página por página. Acho que a coisa lúdica do papel, do papel vir da madeira, a madeira vem da terra. Eu não abro mão disso. O lance é você cheirar tinta, cheirar papel, você guardar o gibi velho. Essas coisas, os leitores na faixa dos 30 e 40 não abrem mão disso. A molecada talvez. Porque hoje, com 15, 16 anos já tá lendo "Preacher" e "Sandman". Não é igual ao nosso caso. Eu fui descobrir "Sandman" com 30 anos. Enquanto a internet não for simultânea e não tiver uma linguagem definida, vai demorar um pouco. É igual a coisa do som e cinema. Até que fundiu tudo, demorou um tempo até as pessoas se adaptarem. Acho que tem vida longa para o papel.

Você acha que a relação cinema/hq é boa ou ruim para os quadrinhos?

É legal não pra aquele fanático que gosta de ver a adaptação bem feita. Mas, comercialmente falando, acho que pode ser um passo importante. Falávamos de fase cíclica. Por exemplo, "O Senhor dos Anéis" há dez anos era muito falado e hoje tá em voga novamente. Em 2002, temos pelo menos sete filmes baseados em quadrinhos. Acho que isso pode ajudar na popularização do quadrinho. Mas, desde que as produtoras saibam dizer que isso nasceu no quadrinho. Não adianta nada o cara assistir "Blade" e não saber que Gene Colan desenhou "Blade", que foi um dos sucessos da revista "Tumba de Drácula".


Variedades com títulos para adolescentes e adaptação de filmes

Tem que ter um marketing dizendo que aquele produto é derivado do quadrinho. Até pra quebrar um pouco o preconceito que ainda existe. "Planeta dos Macacos" foi uma coisa que eu acreditei, que os quadrinhos foi um sucesso nos anos 70. Quando saiu o filme, nós publicamos a adaptação oficial. Qualquer outra oportunidade que tivermos nessa área, vamos fazer também.

Pra você, qual seria o grande filme baseado nos quadrinhos?

"Hellblazer"! (enfático) Acho que dá pra fazer um trabalho bem legal. Acho que já tem uns roteiros prontos e que podem ser facilmente dirigidos. Esse lance de beberrão, fumante, canastrão, misturado com magia e sobrenatural, o terror urbano. Seria uma coisa muito atraente prum público especial.

O formatinho teve um final polêmico na Abril e agora você está lançando alguns títulos neste formato. Qual o seu conceito sobre o formatinho?

Fiz uma matéria recente que ainda não foi publicada. Deve sair no Dc Millenium número 1. É a volta definitiva do formatinho. Este título já era pra ter sido lançado, mas eu preferi produzir as três primeiras edições pra não ter problema de atraso. Eu aprendi a ler no formatinho. Meus gibis da Bloch, da RGE, da Ebal, da Abril são formatinho. É um formato que eu gosto, mais fácil de tá carregando pra cima e pra baixo. Você consegue reunir três edições americanas numa só, num custo mais acessível de produção e que pode estar passando pro leitor.


"Spy Boy" e "Ghost & Batgirl": a volta do formatinho

O formatinho é aquele gibi que você lê no ônibus, no metrô. São histórias menos densas e de mais aventura.

Várias editoras surgem, lançam títulos que são
cancelados sem satisfação nenhuma aos leitores.
Dentro dessa realidade de mercado, qual é o conceito da Brainstore?

A nossa preocupação é trabalhar a longo prazo. Não se monta uma editora de uma hora para outra. Estamos completando três anos de existência e queremos ir devagar, descobrindo linhas que tenham continuidade. O "Preacher" já está regularizado. Agora, a idéia é regularizar a periodicidade do "Sandman". A partir disso, é criar um elo com o leitor e estarmos trabalhando continuamente. A questão de se cancelar títulos, ninguém está livre disso. Já houve caso de eu lançar "Batman & Etrigan" e sair outro "Batman & Etrigan" por outra editora por questões contratuais ou pela pessoa ter liberado o mesmo título pras editoras diferentes. Isso são coisas complicadas num mercado muito grande. Além de ter muito público, tem um território vasto e um número grande de editoras. Acho bacana que se tenha bastante editoras. Um exemplo que sempre falo é o "Spirit", do Will Eisner, que é publicado nos EUA há muitos anos porque vende dez mil exemplares por edição. No Brasil, ele já passou por umas cinco editoras e todas cancelaram porque ele só vende dez mil exemplares. O fato de ter editoras pequenas, faz com que os produtos sejam mais fáceis de serem trabalhados. O que precisa é ter muito cuidado com os títulos que você publica. Hoje, estamos com os cinco principais títulos da Vertigo dentro da Brainstore. "Sandman", "Preacher", "Hellblazer", "Transmetropolitan" e "Invisibles". Teremos cerca de quatro títulos dirigidos, um por semana. Consequentemente, você cria o hábito no leitor, dele chegar na banca e encontrar este produto. Queremos manter um número pequeno de títulos, mas com continuidade. Temos o "Batman & Lobo", o "Lobo & Hitman", o "Lobo & Etrigan" e "Batman & Etrigan". São quatro títulos que se entrelaçam. Um dos próximos títulos é a origem de Hitman em "Hitman & Etrigan". Esta é a preocupação. Um título levar ao outro, um personagem apresentar o outro. Criando esse crossover não só de personagens, mas de títulos também e não que um título continue no outro. É criar um entrelaçamento. A idéia é fazer o leitor se acostumar e na hora que ele ver a marca da Brainstore, é saber que aquilo tem cotinuidade.

Entrevista: Andhye Iore, dez/2001

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