FÁBIO ZIMBRES
Novas técnicas são
combustíveis para Fábio Zimbres
O
quadrinhista multi-mídia fala de seu trabalho da
época
de fanzineiro na Animal até as tiras na Folha de
São Paulo
Andhye Iore - De
fanzineiro às tiras na Folha de São Paulo.
Você
acha que o fanzine é a melhor escola para
quadrinhistas e jornalistas?
Fábio Zimbres
- Bom, pra começar, não sei se dá pra dizer
que eu sou um fanzineiro porque no meu começo,
quando eu fiz a revista Brigitte na faculdade em
86, eu nem estava pensando em zines. Mas sim nas
revistas alternativas que eram comuns na década
de 70. Mas, a revista me levou a conhecer alguns
fanzineiros e quando eu comecei a Animal, por
isso mesmo, eu acabei com a seção do Maudito
Fanzine. Meu envolvimento maior com os zines
começou aí e ainda mais depois que a revista
acabou. Dá pra se dizer que eu fui aos zines
depois de já ter publicado e não como um
caminho para ser publicado. Se alguém se mete a
fazer um zine, ele vai aprender na marra algumas
coisas que depois vão ser úteis. Mas não sei
se é a melhor escola. É uma delas.
De todas as tiras na FSP, o seu
trabalho é o que mais se distancia
do conceito convencional de tiras. Você mesmo
disse que o seu
trabalho é meio esquisitão. Como você vê o
estilo Fábio Zimbres?
Ah, eu não vejo,
eu faço. Ah, tá bom, brincadeira. Mas é um
pouco assim. Eu prefiro que as pessoas analisem
do que eu colocar o que eu faço dentro de um
modelo. No que diz respeito às tiras, eu acho
elas muito clássicas na verdade. Eu sempre me
lembro de Charlie Brown, de algumas tiras dos
anos 50 e de alguns sitcoms americanos. E tem um
ritmo que não é o ritmo frenético de hoje em
dia. Mas as pessoas vêem um monte de outras
coisas nelas e está bom assim.
O Maudito Fanzine foi uma das
maiores referências para os
fanzineiros de todo o país. Para você, qual é
a importância do MF?
O que eu gostei do
Maudito é que eu acabei ficando amigo de alguns
fanzineiros e é gente que eu gosto muito. Me deu
também, a oportunidade de fazer meus próprios
zines e isso eu acho importante porque alimentou
meus outros trabalhos, tanto os quadrinhos quanto
minhas pinturas e gravuras.
Fale um pouco dessas gravuras e
pinturas...
Meu desenho sempre
teve alguma coisa de expressionista que fazia
meus amigos dizerem que eu devia fazer gravura ou
algo assim. E, na verdade, todo meu trabalho de
ilustração e mesmo quadrinhos sempre foi numa
direção da experimentação e eu fui deixando
de lado aos poucos essa idéia de layout e
arte-final e fui arrumando um jeito de misturar
tudo. O computador ajudou nisso. Como eu tenho
formação de arquiteto eu penso muito sobre o
meio onde estou: se é pintura, penso em pintura,
se é gravura, penso em gravura e se é pra ser
impresso eu tenho noção de como é esse meio.
Mas, em todos os meios você pode arrumar a
maneira de misturá-los e experimentar fazer as
coisas se chocarem: desenho, impressão, pintura.
Mas cada coisa, no final vai dar um produto
diferente, de acordo com o meio.
Uma curiosidade sobre o seu
trabalho é que você não segue uma
linha/estilo específico. Você explora formas e
materiais. Existe a preocupação
de estar sempre fazendo algo novo, a novidade é
um combustível para você?
Sim, é isso
mesmo. Eu me canso se eu sigo um modelo muito
pré-definido e isso está sendo um desafio na
tira, onde eu me propus a seguir um estilo e
quero ver até onde eu consigo ir com isso. Por
outro lado, eu já deixei portas abertas para
que, no meio do caminho, eu dê uma guinada que
me ajude a seguir adiante sem me entediar.
Porque, normalmente, eu gosto de fazer projetos
únicos, um trabalho fechado e o próximo já vai
ser outra coisa, outro tipo de desenho outro
formato, outro humor, etc.
A produção cultural no RS é
agitada. Tanto no rock, em
vídeo e nos quadrinhos. E o legal é que não
há uma
preocupação em fazer coisas comerciais. Vocês
criam coisas
incomuns que são bem recebidas pela mídia, tem
um público fiel e
uns ajudam aos outros. Como é aconvivência
entre vocês?
Não sou muito
enturmado assim. Logo que eu vim morar aqui eu
ficava muito com o pessoal da Dundum (N.:
revista editada por Adão Iturrusgarai que teve
problemas com políticos locais que
consideraram-na pornográfica) que depois foi
embora daqui. Mas era divertido, a gente tocava
junto, fazia umas sessões de desenho etc. Tem
muita gente que eu gosto daqui em música,
desenho e artes mas não me envolvo em muito
trabalho conjunto. Eu tenho um processo meio
confuso e lento de trabalho e nem sempre consigo
me envolver bem com coisas maiores. Quando o
Allan morava aqui, ele servia como um canal pra
essas coisas, mas eu fico muito em casa e não
sei de nada.
Você recebe crítica devido ao
desenho?
A Folha não me
manda muitas cartas, mas acho que chegam
críticas sim. Só com relação ao desenho, não
sei, mas em relação a tudo, que a tira é
chata, depressiva etc. Mas, o desenho não tem
nada a ver com paciência nem com conteúdo sobre
forma. Pra mim, é tudo a mesma coisa e o desenho
é exatamente como eu quero que seja. Leva mais
tempo fazer a cor do jeito que eu faço do que se
eu fosse colorir chapado como é a maioria das
tiras. Eu acho que é o desenho ideal pro que eu
faço, cria um contraste. E, ao mesmo tempo, ele
é cru porque tem essa intenção do imediato. E
isso faz parte do conteúdo e não uma coisa
aparte.
Você tem trabalhado bastante com
Internet.
Qual a importância dela para você?
Internet é como
zine. Existe todo o lado comercial que está
influenciando a linguagem e definindo, afinal,
como é que vai funcionar essa coisa. Mas, o que
me interessa mesmo é a possibilidade de criar
coisas em liberdade total. A Internet, por
enquanto, é só um meio de expressão a mais.
Não estou ganhando dinheiro com ela.
Andhye
Iore
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