FERNANDO GONSALES
Mundo animal
Qaudrinhista formado em biologia e veterinária é um dos mais admirados no Brasil

O criador da personagem Níquel Náusea tem uma formação sem referências à histórias em quadrinhos. Formado em biologia e veterinária, o paulista Fernando Gonsales, 40 anos, nunca fez curso de desenho, cria insetos desde criança e é um dos cartunistas mais bem sucedidos no Brasil (se é que é possível isso nesta área).

As personagens criadas pelo desenhista são animais, com raras exceções como o estúpido Mago Vostradeis. Misturando absurdamente a rotina do dia-a-dia com ficção, Gonsales coloca animais interagindo e também atuando em situações típicas aos humanos. Com um traço simples e característico, o autor abusa da ironia e do deboche, dando um ar de ingenuidade às personagens.

Começando a publicar suas personagens de maneira independente, Gonsales foi conquistando leitores fiéis e crescendo aos poucos. O impulso para a carreira veio em 1986, ao vencer um concurso seletivo realizado pelo jornal Folha de São Paulo, para escolher talentos para publicarem tiras diárias no jornal. Porém, com o merecido destaque, faz questão de frisar que é contra mercantilizar personagens, como colocar o Fliti pra fazer propaganda de inseticida, por exemplo.

Dos tempos em que as bancas ficavam recheadas de lançamentos, a revista "Niquel Náusea" saía de vez em sempre (sem uma periodicidade certa) e, além do rato que dava nome à revista e do Fliti, um barato viciado em naftalina e baratox, Fernando ainda cedia espaço para novos talentos do quadrinho brasileiro como Spacca, Negreiros, Duval, Newton Foot, entre outros e, também, divulgava fanzines de todo o país. Mesmo com o amadorismo declarado das revistas, Fernando Gonsales se tornou um ícone para muitos fãs de quadrinhos no Brasil.

Além de ter as tiras reproduzidas em diversos jornais do país, o autor lançou este ano um livro – "Os Ratos Também Choram" – de 68 páginas, com mais de 230 tiras coloridas.

Texto: Andhye Iore, julho/2001
Entrevista: Andhye Iore, 1993

ENTREVISTA

Andhye Iore - Qaul foi a origem de seu trabalho?

Fernando Gonsales - Desenho desde moleque e, naquele tempo, eu lia muito Disney que, acho, de um jeito ou de outro me influenciou. Depois, passei a aprender com o Quino, Aragonés, Asterix, Canini, entre outros.

Suas tiras, geralmente, são relacionadas a animais. Por acaso,
você já foi domador de circo, veterinário ou zelador de zoológico?

Acertou! Sou veterinário, mas não exerço a profissão.

Além dos quadrinhos, quais outras atividades que você gosta?

Gosto de cinema, leio um pouco e, sempre que possível, vou à praia.

Quais são seus estilos de cinema, literatura e música?

Não gosto de filmes muito herméticos, introspectivos. Prefiro ação e humor. Livros eu leio pouco, gostei muito de "Cem Anos de Solidão", do Gabriel Garcia Marquez. E música eu ouço de tudo (quase tudo!), depende do dia.

Como está o mercado de quadrinhos hoje?

Hoje está meio ruim, em relação há uns dois anos atrás. Mas, se for ver como era o quadrinho nacional há dez anos atrás, até que hoje está legal. E os estrangeiros continuam competindo com os nacionais com muito mais vantagem, com baixo custo de material, por exemplo. Mas, ainda assim continuam saindo algumas revistas só brasileiras. No Brasil, alguns ficam fazendo o chamado quadrinho comercial, como o Maurício de Souza. Fazendo o quadrinho artesanal, de autor, é bem mais difícil e são raríssimos.

Você participou da 1º Bienal de Quadrinhos do
Rio de Janeiro, em 1991. Como foi sua atuação lá?

Fui ao Rio de Janeiro para a Bienal e achei importantíssimo para a hq brasileira. Alguns contatos foram feitos. Foi um bom começo.

Você sempre dedicou espaço aos fanzines nas suas publicações.
Qual o seu conceito sobre este tipo de publicação?

São muito importantes, pois divulgam idéias e eventos de forma alternativa e, o principal, de forma independente.

Quais são os artistas que você destacaria no mercado de quadrinhos nacional?

No meu gibi, tenho publicado o Duval, que eu considero muito talentoso. E, no sul, estão pintando vários caras legais.

Andhye Iore

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