OPINIÃO
Abril Despedaçada
João
Paulo Udo, agosto 2002
Começo do ano de
2002 e a Abril anuncia que não vai mais publicar
as revistas da Marvel Comics. Depois do susto vem
a informação que os heróis da "Casa das
Idéias" serão publicadas pela Panini em
parceria com a Mythos Editora. Um desentendimento
envolvendo distribuição de figurinhas (ou algo
assim) foi a explicação para tanto.
Como leitor há
alguns anos cheguei a ficar preocupado, afinal a
Abril sempre publicou as histórias de todos os
heróis de roupa colante, salvo a poucas
exceções, como algumas mini-séries.
Entretanto, havia um ponto positivo: finalmente
haveria uma guerra entre a Marvel e a DC Comics,
as grandes rivais norte americanas, e essa
concorrência poderia ser muito boa para o
leitor/consumidor. Pelo menos teoricamente.
A Marvel sempre
foi o carro chefe da Abril, ficando a DC em
segundo plano, ou seja, X-Men e Homem Aranha à
frente de Batman e Superman. Agora sem seus
campeões, o que faria a outrora editora de todos
os heróis? À priori, foram anuncionados
grandes lançamentos para o ano, "Mulher
Maravilha: Espírito da Verdade", com a arte
de Alex Ross, e o aguardado "Cavaleiro das
Trevas 2", de Frank Miller, além de
reedições de importantes (ou nem tanto) eventos
do universo DC: "Cavaleiro das Trevas",
"Batman Ano Um", "A Morte do Super
Homem".
Algum tempo depois
a Abril retornou às bancas o (nem tão) bom e
velho "formatinho", com vários
títulos para os leitores. Havia ainda a estréia
do novo desenho da Liga da Justiça pelo Cartoon
Network.
Aparentemente,
nada disso foi o bastante, pois com menos de um
ano dessa nova fase, chamada de "Planeta
DC", a Abril anunciou que não mais
publicará as HQs da DC Comics. E quem mais perde
com isso é a legião de leitores/fãs
brasileiros. Falta de sorte, de lucro, de boa
vontade...? O que sabemos é que em mesmo em
pouco tempo, o processo de auto-destruição da
Abril foi muito eficiente...
Em torno de dois
anos atrás, a Abril trocou todos seus títulos
por uma tal série Premium. As diversas revistas
foram reunidas em algumas poucas. O que antes era
"apenas um gibi" transformava-se em
"item de colecionador".
O problema é que
isso favorecia os leitores antigos e praticamente
descartava a possibilidade de formar novos.
Afinal de contas, pagar R$10,00 por uma revista
todo mês é meio complicado (a discussão sobre
a situação socio-economica do país fica para
depois...).
Por melhor que a
parte gráfica fosse, a qualidade das histórias
já não era a mesma (não por culpa da Abril) e
até eu pensei em desistir (entenda-se, parar de
ler/comprar HQs). Se a situação já não estava
tão boa, a Abril ainda perdia o Homem Aranha e
seus amigos, e justo no ano em que um dos filmes
mais aguardado era a adaptação do escalador de
paredes para a telona.
Paralelamente,
começava uma explosão de mangás nas bancas de
todo o país (ou, primeiramente na região
sudeste). A JBC e a Conrad passam a publicar
mangás para todos os gostos, dos famosos e
consagrados pela TV aos não tão conhecidos
assim: Cavaleiros do Zodíaco, Samurai X, Dragon
Ball, DBZ, Sakura Card Captors, Guerreiras
Mágicas de Rayearth, Video Girl AI, Vagabond,
Neon Genesis Evangelion, Love Hina...
Em preto e branco
e lidos de trás para frente, como nos originais,
além do preço (a maioria por R$ 2,90, sendo o
mais caro R$ 4,50), os "quadrinho
japoneses" apresentam um estilo totalmente
diferente dos "comics norte americanos"
e cativaram o público brazuca (mangás e animes
ficam para a próxima, se o Andhye permitir...).
O resultado final
de tudo isso é que agora inúmeros leitores
estão "órfãos". Poucos conseguem
comprar revistas importadas, ainda mais agora.
Resta torcer para que a Panini continue o bom
trabalho (até agora poucas reclamações, além
do preço, R$ 6,90 por revista mensal), com os
títulos mensais, as ótimas mini-séries que
vêm sendo lançadas (Origem,
"Demolidor:Amarelo") e prometidas
(entre elas "Homem Aranha: Azul") e a
nova linha "econômica". Se no começo
do ano era "o fim de uma era", agora
"já era"...
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