LUKAS
Cartunista maringaense lança livro

SUPERS – Qual o seu nome completo e idade?

LUKAS – O nome era pra ser Marcu,; idéia da minha mãe. Aí chegou uma tia e me salvou: sugeriu Marcos Cesar; a mãe gostou e ficou Marcos Cesar Lukaszewigz. Avô russo e pai polonês. As três iniciais dão 1150 em romano. Nunca joguei na milhar. Em 1247 fazia 715 anos que eu ainda não havia nascido.

Como surgiu a idéia da abreviação do nome?

Em 85 era tudo ou nada e eu escrevi uma carta pro Pasquim que era o melhor cartunista do Paraná, só que apenas eu sabia disso. O Jaguar publicou que eu era o melhor, porém o mais impronunciável. Sugeriu abreviar o nome para Lukas... Eu assinava o sobrenome completo. Coisa de principiante. Assinava bem grande e só faltava colocar o endereço e telefone. Em 87 quando optei por desenhar sem parar usei a idéia. No começo era estranho. Alguém passava na rua e falava: "Ô Lukas!" e eu demorava pra me tocar. Até então eu era o Marcos ou, pro pessoal da vila, Polozi; apelido que ganhei quando jogava bola. Existe o Marcos e o Lukas: um desenha, faz palhaçada e dá entrevista na televisão. O outro usa o dinheiro pra pagar as contas; conversa sobre política de forma séria (N.R. : será que é possível?) e chora quando lê John Fante. Eu gosto mais de ser o Lukas.

Como você começou a se interssar por desenho?

Faço cartuns e HQs desde os 13 anos. Guardava tudo na gaveta. Aos 16 descobri Tintim, do belga Hergé. Gamei. Já li os 23 álbuns umas 30 vezes. Dos 18 aos 23 publiquei um monte de coisas no O Diário. Não recebia nada por isso e não sabia nem onde ficava a sede do jornal. Um amigo era quem levava pra mim. Aí pararam de publicar por uns dois meses. Foi quando escrevi a carta pro Pasquim. Fiquei fora de cena por dois anos. Aos 25 o pessoal me descobriu ( de lá pra cá não parei mais). Sempre ganhando pouco. Sorte eu Ter um emprego num órgão do Estado desde 82. Em 89 mandei à merda o serviço e decidi viver apenas com desenho. Me fodi durante um ano e meio. Em março de 91comecei a ganhar muito dinheiro. 91 foi o ano que deu certo pra mim, mas não acho coincidência. É puro mérito. O espiritismo explica esse tipo de coisa. Eu me ferrei muito e passei até fome. Uma hora a coisa tinha que mudar.

Quais são as suas influências e ídolos?

No traço minhas primeiras influências foram uns gibis do Brucutu, Dick Tracy e do Capitão Cesar. O absurdo e o besteirol vieram dos Três Patetas, Luís Fernando Veríssimo e Ivan Lessa. O movimento que dou a alguns personagens veio de Tintim, em cujas histórias a correria é quase constante. O traço atual é culpa do Laerte. O estilo, no começo, foi influência do Don Martin, da revista Mad (isso aos 18 anos). Hoje eu reciclo tudo e faço meu próprio trabalho, com idéias minhas. O traço é meu. Ídolos? Não chegam a tanto, mas eu gosto de Chaplin, Walt Disney, Stan Laurel, João Saldanha, Will Eisner, Laerte, Kraftwerk, Hitchcock, Bolão, Reco-Reco e Azeitona.

A leitura é seu principal hobby. Quais são seus autores preferidos?

É incrível, mas não consigo ficar sem ler; não consigo soltar um barro se não estiver lendo e não consigo comer se não tiver algo pra ler. Gosto de literatura "beat", depravada, deprê e que falam da miséria humana. Kerouac, J.D. Salinger, John Fante, Bukowsky, Vitor Hugo, George Orwell, Poe, Kafka e Dostoiewski. Quadrinhos, um porrilhão. Walt Disney (HQs dos anos 50 a 70), Piratas do Tietê (que agora tá uma merda), Snoopy, Cripta do Terror, Groo, e mais um montão de coisa que agora não me lembro. A crise estagnou o mercado de quadrinhos. Faz uns 4 meses que deu uma parada na circulação e a gente não acha nada de interessante pra comprar. Eu tô mais ligado em livros. Já li 14, esse ano.

Quais as suas preferências no cinema e na música?

Eu vou muito pouco ao cinema. Só quando o filme me chama a atenção, aí eu vou umas 3 ou 4 vezes assistir ao mesmo filme. Não manjo picas de cinema. Gosto do Monty Python, assisti umas 4 vezes The Wall, O Expresso da Meia Noite, Warriors, Perdidos na Noite e os Intocáveis. O cinema "cabeça" não faz a minha. Geralmente são dirigidos por intelectuais que querem transmitir porra nenhuma e são vistos por pessoas que não entendem porra nenhuma e aí vira "cult movie". Curto o Brian de Palma e Allan Parker. Música tem uma porrada: Run DMC, Kraftwerk, Siouxsie, Cure, Fall, Joy Division, Pink Floyd, B 52’s, Devo, Sisters, etc. Odeio révimetalismo, sertanejo, Lulu Santos e samba. Samba enredo então, eu tenho nojo.

Você tem um sistema de trabalho ou é tudo espontâneo, vai pintando?

Não dá pra definir. Na verdade eu uso as duas formas pra trabalhar: quando tô legal tudo surge do nada, mas às vezes tenho que forçar a barra e aí sai uma merda. De dia eu ando pelas ruas vendo as coisas e conversando com pessoas; à noite, geralmente de madrugada, eu mando ver. De madrugada eu fico a mil. De dia eu pareço um morto vivo.

Em quais publicações você já teve trabalhos seus publicados?

Fora de Maringá, no Pasquim, no Nicolau (jornal editado pela Secretaria de Cultura do Paraná) e na Revista da Cidade, de Arapongas. Por aqui, em praticamente todos os lugares. Atualmente mantenho uma página dominical do "O Diário", 1 cartum quinzenal no Jornal da Cocamar (temas rurais), 1 página na revista Pois É (mensal) e uma página na revista da Associação Comercial (também mensal) e mais alguns "freelas".

Como é a relação com os fãs? As pessoas elogiam/ criticam seu trabalho?

A relação com os fãs é feita com preservativo (risos). Eu nunca imaginei que tivesse fãs, mas acabei descobrindo que tenho vários. Já aconteceu de eu estar num barzinho por exemplo, e alguém dizer maravilhas a meu respeito sem saber que eu tô ali, bem do lado. Eu os trato bem, respondo as cartas e converso com eles de maneira informal e sem esnobação. Dia 14 de abril eu vou dar uma palestra para estudantes de 7ª e 8ª séries na Biblioteca Central. Eu acho um barato esse tipo de coisa. Críticas eu recebi no começo, por causa do traço que era bem ruinzinho. Elogios são vários. De um garoto de 8 anos até uma senhora de 52 que me escreveram tempos atrás.

Você mora sozinho. Como é sua vida pessoal,
você é organizado, ou é do tipo que tem o "monstro da pia" em casa?

Isso é um assunto muito nojento pra gente conversar, mas vá lá. Desde garoto meu sonho era comprar um apartamento pra morar sozinho. Em 89 eu consegui um. Tem um colchão (de casal, claro), um fogão pra fazer o rango e a geladeira pra cerveja, água e o tubinho de Super-Bonder. A limpeza semanal é feita de seis em seis meses. O monstro da pia enjoou e caiu fora. Agora, zona mesmo tá no quarto de desenho. Dia desses fiz um cartum e ele desapareceu no meio da bagunça. Não achei até hoje. Volta e meia me dá uma louca e eu fico aqui o dia inteiro fazendo limpeza. Depois eu zelo pela ordem uns 10 dias, mas aí começa a sujar de novo e fica do jeito que está nesse exato momento: ideal pra criar porco. Em julho devo me casar e aí a coisa muda. Já tenho tudo comprado e embalado dentro de um dos quartos. Sozinho eu levo uma vida muito desregrada. Um dia quebrou um copo (o único) e eu fiquei tomando café, água e cerveja num pote de plástico por dois meses. É horrível.

Você lançou seu 1º livro de cartuns – "O Que Vier Eu Traço" –
Como é a história desse livro?

Seguinte... Eu fui ao Colégio Nobel tentar vender um anúncio pra minha coluna. O Carlos Anselmo, um dos diretores do colégio me atendeu. E eu lá, todo tímido porque não sei vender anúncio: "Eu tenho uma coluna de humor no O Diário aos domingos e..." aí ele arregalou os olhos e disse: "Você é o Lukas?". Então o papo rolou por um tempão até eu tocar no assunto. Ele me pediu pra voltar no outro dia porque tinha que conversar com os outros diretores. Quando voltei lá ele me recebeu em sua sala e falou: "Eu tenho uma péssima notícia pra te dar". Fodeu, eu pensei. Aí ele emendou: "A gente tá querendo fazer um livro de cartuns seus. O que você acha?". Eu simplesmente quase caí da cadeira. Depois disso foram 3 meses preparando o material e divulgando o lançamento, que foi no dia 9 de novembro e, segundo a responsável pela biblioteca, foi o lançamento de livro mais concorrido que eles já tinham promovido. O Nobel tem uma gráfica própria o que barateou o preço. Já vendi uns 500 livros. Dia desses autografei 2, que foram enviados para o Japão. Também lancei o bicho em Londrina, numa Sexta-feira 13. Foi num barzinho e conheci um monte de gente legal. Em breve vou lançá-lo em Curitiba e Paranavaí. São 162 cartuns e tiras que, pra mim, são os melhores que já fiz até hoje. Agora estou pensando em gravar o disco e fazer o filme. Ou ter um filho e plantar uma árvore.

Você pretende ficar rico e famoso ou já está?

Muita gente quando me conhece diz "Você é que é o famoso Lukas?". Até agora ninguém falou "Você é que é o milionário Lukas?". Eu administro bem a fama; já o dinheiro , nem tanto. O Diário, onde tenho minha coluna dominical é de grande circulação e graças a isso consegui divulgar meu nome e meu trabalho (teve gente que renovou a assinatura só por causa da minha coluna). Apesar disso, eu faço questão do anonimato e não gosto de badalação. Eu fico na minha; quietinho no meu canto. Quanto ao dinheiro, nunca ganhei tanto em toda a minha vida. Acho que, na imprensa da cidade, é o 2º ou 3º maior salário e isso dá uma dor-de-cotovelo em muita gente. O problema é que aqui, pra você ser considerado rico, tem que Ter um carro. Se o cara anda a pé é sinal que tá na merda. Eu odeio carro. Aliás, nem dirigir eu sei e não tenho tesão nenhum pela coisa. Financeiramente estou bem, mas ninguém precisa ficar sabendo. Meu lema é "Não sou nada, não tenho nada". Isso afasta olho gordo.

Tem algum cartum seu que têm alguma história interessante?

Existem vários e todos estão no livro. O que ilustra a contracapa foi tema de Redação no penúltimo vestibular da UEM e é uma puta sacada. Tem o da "Escora", que é bem ecológico. Aquele dos caras no bar pedindo pro cantor tocar o Chico. O do cara que chega no boteco e pede um uísque, que eu bolei de madrugada e quando fiz o esboço, comecei a dar risada e não conseguia mais parar. E mais alguns aí.

Fale sobre Maringá, no geral:

Como eu já disse, Maringá sofre da síndrome da "dor-de-cotovelo". Ninguém se propõe a fazer nada, e quando você inicia uma atividade os caras ficam azarando e torcendo pra você se foder. A cidade é bonita, a gente tem que concordar, mas o povo é uma lástima. Aqui se preza muito o dinheiro, você vai aos bares e ouve o papo do pessoal e tem vontade de vomitar. Você vê aquele monte de mulher bonita e gostosa e se for conversar com elas, você se arrepende até o cabelo do cu de ter puxado papo. Elas gostam é de caras ricos e burros que é pra dominar a situação. Se elas percebem que você tem um mínimo de raciocínio, ou se é da imprensa, elas caem fora com medo, ou sei lá o que. O que você tem que fazer é conquistar, dar um comão e meter o pé no rabo. Esses dias caí na besteira de ir com um amigo no Car- Wash (olha o nome do bar). Sentamos com duas amigas dele à uma mesa e só rolou bosta. Meia hora depois falei que ia no banheiro e não voltei mais. Sou mais o bar do Toninho, perto de casa, com aquele monte de pedreiro por lá no fim da tarde tomando pinga com raiz e falando sacanagem. Lá os caras dizem "vévi", "despois", "Curíntia". Eles são pobres e trabalhadores e não escondem isso. É mais aceitável do que ouvir um Mauricinho dentro de um Monza, dizer: "O pessoal foram no grito de carnaval". Moro aqui desde 1970 e de lá pra cá, a cidade evoluiu bastante, tem um montão de prédio e carros. É uma cidade para ricos, onde o provincianismo impera e o bispo dita as regras. A solução para Maringá é mandar sair todo mundo e depois chamar um por um. Dar uma peneirada. Vai ser interessante morar numa cidade fantasma.

Apesar do fanzine ser um meio marginal, principalmente aqui em Maringá,
a partir do "TWS" já surgiram outras publicações na linha.
Qual a sua opinião sobre este tipo de publicação?

Eu não sabia que essa porra era marginal. Tem que meter atrás das grades. Eu me lembro de quando você foi na minha exposição de cartuns na prefeitura e me disse que estava querendo fazer um fanzine. Na época a gente não se conversava muito mas dei a maior força e pensei: "Cacete. Até que enfim vai Ter um fanzine na cidade", porque eu botava a maior fé na tua cabeça. O TWS foi o primeiro zine da cidade. Isso abriu a mente do pessoal e agora temos o Magazine Pernambucanas. Teve o Analecto que chegou por 3 ou 4 vezes e parou, e mais alguns que circularam apenas uma vez e ninguém sabe onde foram morrer. O TWS é um autêntico zine. Circula todos os meses desde que começou e o acabamento final é muito bom. Eu tenho reparado na grande quantidade de cartas que você recebe: Natal, Goiânia, interior de SP e o escambau. Isso demonstra que esse tipo de publicação é bem aceito pelas pessoas. Alguns, mais conservadores, associam o lance do rock com drogas. Como o zine fala basicamente de rock imagina-se que os fanzineiros sejam todos doidões , o que não é verdade. Eu tenho visto alguns que você recebe. Existem alguns que são ótimos e outros, uma merda. Mas dou a maior força.

Como você se sente, sendo um dos responsáveis pelo sucesso do TWS?

Tô sabendo disso agora. Se conseguir provar que eu sou o responsável, eu indenizo. O que eu publico no TWS é pura sacanagem. Eu não poderia fazer isso na grande imprensa. É legal que dá pra liberar o lado selvagem da gente. Opa. Olha que sacada: "lado selvagem". Um bom nome prum fanzine.

Deixe uma mensagem para os leitores:

Um negócio que eu acho legal no TWS são as mensagens contra as drogas. A droga torna o sujeito apático e sem vida. A gente necessidade de ficar ligado nas coisas e nas pessoas que estão a nossa volta. Não precisamos de estimulantes para fazer palhaçada no meio da rua, conversar, rir, namorar e levar mulher pra cama. Querem ficar legais? Façam como eu e o Andhye: tem Sábado que a gente vai num monte de bar e enche o rabo de cerveja. 3 ou 4 bares e em cada um 4 cervejas. É mais barato que drogas. O dinheiro que sobra a gente gasta com gibi.

Andhye Iore