LOURENÇO MUTARELLI

O quadrinhista brasileiro mais premiado tem duas fases distintas
Depois de títulos mais agressivos, influência da síndrome de pânico,
Mutarelli encontrou nas graphic novels policiais o sucesso internacional

Nascido em abril de 1964, o paulista Lourenço Mutarelli é um dos mais conceituados artistas dos quadrinhos brasileiros, dentro do estilo quadrinhos de autor. Graças à uma doença chamada síndrome do pânico, também conhecida como psicose maníaco depressiva, sua carreira está dividida em duas fases.

A primeira, no início dos anos 90, com crises de ansiedade e depressão, criou obras mais agressivas, num estilo mordaz, cínico e que não traz muito orgulho ao artista atualmente. A segunda, no final da década de 90, com a doença sem tanta influência sobre o trabalho, envolve uma narrativa policial. Uma nova perspectiva de relação vida/trabalho ocasionada justamente pelas oportunidades oferecidas pelo mundo dos quadrinhos.

DESTINO PREMIADO

As personagens do universo de Mutarelli não são heróis. São pessoas comuns que sofrem das desgraças da vida como solidão, tem deficiências físicas, distúrbios de comportamento, desilusões amorosas e morrem. Afinal, ninguém foge de seu destino.

Como se não bastasse, Lourenço faz questão de explicitar a condição humana dando contornos bizarros e cruéis ao enredo. As histórias tem várias citações bíblicas e poéticas, além de referências de arte surreal e impressionista de pintores como Dali, Munch e Doré. E, também, de literatura, música latina, Velvet Underground e fatos banais do dia-a-dia, incluindo amigos como personagens.

Mutarelli começou como todo artista que trabalha fora dos padrões comerciais. Publicando suas histórias através dos fanzines, Lourenço conquistou respeito e admiração. Mas, ao apresentar seu trabalho em alguma editora do mercado, era comum ser recusado pela aparência "estranha" que conceituavam sua arte.

E foi justamente essa qualidade estranha que fez de Lourenço Mutarelli o quadrinhista brasileiro mais premiado. Além dos tradicionais prêmios Angelo Agostini e HQ Mix, também faturou a premiação de melhor obra na 1º Bienal de Quadrinhos do RJ.

FANZINES

Formado em Belas Artes em 1983, trabalhou no estúdio de Maurício de Sousa entre 1996 a 1998 e, depois, lançou seu primeiro fanzine batizado de " Over 12". A partir daí, entrou de cabeça no mercado alternativo, fazendo parceria com Marcatti e publicando em revistas como Tralha, Porrada, Pau-Brasil, Animal e Mil Perigos. Em 1991, lançou sua primeira graphic novel, "Transubstanciação". Com o sucesso da revista que já vendeu mais de 15 mil exemplares, encontrou o reconhecimento de público e crítica através das histórias em formato de livros.

Como influência, os clássicos Tintin, Flash Gordon e Spirit, passando pelo underground americano de Robert Crumb até os refinados europeus como Moebius e Hugo Pratt. O processo de trabalho é assim mesmo, como uma fermentação de várias coisas ao mesmo tempo, onde abusa da observação para captar seus roteiros e desenhos.

Considerando seu desenho sujo, questiona o recebimento de tantos prêmios, mas é meticuloso em criar ambientes fotografando cenas e praticando desenho de observação. Já a elaboração das personagens é estruturada através de livros de psicologia.

INTERNACIONAL

Depois de tantas personagens negativas, com rancor e melancolia, a narrativa policial da trilogia "O Dobro de Cinco", "O Rei do Ponto" e "A Soma de Tudo" do detetive Diomedes, levou a obra do quadrinhista até Portugal e Espanha.

Além dos quadrinhos, o artista também já fez capas de discos, ilustrações para livros de músicas e para Role Playing Games. Mas, o trabalho mais curioso é a série "Está Um Lindo Dia", onde refaz os traços de quadrinhistas famosos como Herge, Art Spielgmann, Angeli, Marcatti, Fernando Gonsales, entre outros, colocando bico de patos nas personagens.

Com uma carreira e estilo completamente diferente de qualquer outro autor brasileiro, Lourenço Mutarelli é mais original exemplo de merecido reconhecimento pela obra. Fazendo quadrinhos sem se importar com o mercado, o artista viciado em remédios sempre quis sobreviver, apesar de tantas crises depressivas. E, felizmente, Mutarelli foi salvo pelos quadrinhos.

Andhye Iore

TRABALHOS

Eis um diálogo de uma história de Mutarelli, onde um personagem encontra Deus.

- O senhor deve ser Thiago, O Poeta!?
- E o senhor deve ser o Senhor...digo Deus!? O Senhor se parece comigo!

- Imagem e semelhança.

- O Senhor realmente existe?

- Acredito que sim...

- O Senhor realmente fez o mundo em sete dias?

- Ora!! Isso faz tanto tempo...

- Qual das suas criações o Senhor mais gosta??

- As tampinhas de coca-cola...

- As de rosca?

- Não! As comuns.