COLUNA
Que saudade do formatinho...

A princípio, eu nem deveria ficar triste, pois além de ser uma ameaça ao meio ambiente, eles representam um luxo ao qual não poderia me dar em minhas atuais condições financeiras. Só que é impossível deixar de ficar ao menos um pouco frustrado, toda vez que passo em frente a uma banca de jornais no centro da cidade, e arrisco uma olhadinha lá dentro para ver se tem algum gibi novo.

Na verdade, tem. Tem sempre. Não como na época áurea dos quadrinhos neste país, quando tanto os títulos mensais como os especiais traziam o melhor do mercado norte-americano para adolescentes e adultos ávidos por boas histórias, quando não havia Internet, nem essa superabundância de revistas de videogames que poluem o visual de uma banca. Nossa grana era curta, mas mesmo assim, dávamos um jeito. E normalmente ficávamos satisfeitos.

Hoje, passado algum tempo, me sinto um tanto traído pela própria indústria que durante anos me manteve informado e entretido com alguns milhares de páginas de desenhos coloridos, e roteiros escapistas sobre pessoas em fantasias que combatem o mal.

Desde julho deste ano que se encerra, a principal editora de quadrinhos do Brasil decidiu que não era mais comercialmente viável manter uma linha de publicações que é parte essencial de sua própria história, relegando os gibis de super heróis a uma elite não apenas econômica, mas também regional: as revistas, agora publicadas em formato americano e com cem páginas mensais, custariam algo em torno de R$10,00, e, como se o dinheiro e o interesse de milhares de leitores antigos como eu nunca tivessem sido levados em consideração, só chegariam as demais regiões do país que não a Sudeste meses mais tarde.

Ficaríamos com o "encalhe". E isso sem consulta prévia, tenho certeza. Se houve algum tipo de pesquisa de opinião por parte deles, confesso que gostaria de conhecer algum pesquisado.

Mas sempre foi assim. Quando comecei a me informar melhor sobre o que acontece lá na matriz, através de publicações importadas sobre o assunto, que traziam detalhes sobre os bastidores da indústria americana de HQ’s, imaginei logo o quanto éramos mal servidos todos esses anos. Numa época de incertezas econômicas – pra dizer o mínimo – penso ser até natural que supérfluos sejam os primeiros a sofrerem cortes. Eu posso entender isso.

O que realmente me incomoda, é a sensação de ser descartável. De ser econômicamente inviável, como um gibi velho e sem capa, esquecido no fundo de alguma gaveta.

Raphael Oliveira

Confira depoimentos de representantes das editoras sobre o fim do formatinho:

"Para nós, o formatinho está aposentado.

A gente pode fazer adaptações, como diminuir o número de páginas e aumentar o de títulos, diminuir o preço, etc.

Mas retroceder para o formatinho é impossível. Antes disso, as revistas são canceladas."

Sérgio Figueiredo, editor-chefe na Abril jovem

(extraído da Folha de São Paulo,
caderno Folhateen, 27/11/2000)

COMUNICADO IMPORTANTE!

Você está recebendo a última edição de sua assinatura do pacote DC Comics, pois ele está entrando em uma nova fase.

As novas revistas serão em formato americano, com capas plastificadas, 160 páginas, histórias muito mais emocionantes. Cada edição de DC Comics será digna de colecionador!

Como parte de destas mudanças, DC Comics está deixando de ser entregue em assinaturas para ser adquirido exclusivamente em bancas. (...) Vai ser muito bom continuar ao seu lado!

Um abraço,
Cláudio Pucci
Gerente de Produto


Conseguirá o novo formato fazer com que os leitores esqueçam o formatinho? Não percam os próximos capítulos das aventuras (ou seriam loucuras?) das editoras brasileiras.

 

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