SONIA LUYTEN

ENTREVISTA

Professora universitária e autora de livros, Sonia Luyten
analisa as hqs como fenômeno da comunicação

Andhye Iore - O mangá também sofre o mesmo preconceito que os quadrinhos ocidentais – de ser considerado coisa de criança. No Brasil, títulos como Sailor Moon e Dragon Ball fazem muito sucesso e contribuem para essa imagem. De que maneira você procura apresentar pras pessoas títulos como Akira, Ghost in the Shell ou Metropolis?

Sonia Luyten - Quanto ao preconceito que sofre o mangá no Japão em relação ao Brasil, a questão é complexa. Os mangás que fazem sucesso no Brasil apenas correspondem, literalmente, a pontinha do iceberg que é a produção das HQs no Japão. O sistema japonês de editoração contempla todas as faixas etárias, sexos e preferências. Portanto, todos lêem mangá. O mangá não é associado somente a uma leitura infantil pois, também os adolescentes, adultos, homens e mulheres de diferentes profissões e gostos são aficionados pelo assunto. No Brasil há uma lacuna e, consequentemente, uma falta de heróis nacionais de que possamos nos orgulhar, na faixa dos adolescentes. Fica, então, uma defasagem nos leitores nesta passagem do quadrinho infantil para o adulto. E o adulto que não segue seus heróis desde a infância. Passando pela adolescência, perde o vínculo e, portanto, só vê os quadrinhos como algo infantil. No Japão, o leitor passa por todas estas etapas, tem seus ídolos, heróis nacionais com os quais se identificam em todas as fases de sua vida. No Japão não se importam quadrinhos. A produção é quase 100% nacional. E a identificação é total. O preconceito que, por ventura, possa existir é em relação a produções ruins, mal feitos, sem critério, etc. Pais e professores sempre tem uma cantilenha contra os quadrinhos. Mas pais e professores desavisados tem em qualquer parte do mundo.

Qual a sua concepção da ocidentalização dos quadrinhos japoneses?

A ocidentalização dos quadrinhos japoneses é um fenômeno com dupla face. De um lado, a grande quantidade de mangá exportada para o ocidente mais ou menos direciona também o gosto do freguês - leia-se o freguês norte-americano em primeiro lugar. Os mangás passaram por uma transformação no visual a começar pelas heroínas. Mudanças nos olhos e uma aumento do busto: uma obsessão norte-americana. E, também sofreram mudanças de conteúdo no mangá feminino. Por outro lado, os próprios japoneses, os artistas a partir da década de 80 com poder aquisitivo maior, exposição maior à internet e outros fatores também sofreram influência tanto da forma como do conteúdo ocidental.

O mercado de hq no Brasil é instável, cheio de altos e baixos. Quais são os principais problemas enfrentados pelos quadrinhos no Brasil?

Os principais problemas que o Brasil enfrentam são de diversas ordens: falta de visão editorial para apostar nos desenhistas nacionais, falta de continuidade editorial (uma vez que apostam, não continuam). Monopólio de distribuição das revistas (vide máfia dos distribuidores) e, o mais importante: o desenhista nacional está sempre de olho na ante-penúltima moda da Europa e dos EUA e não desenvolve algo próprio tanto em forma como em conteúdo. As coisas acontecem debaixo do nariz dos roteiristas e isto não é traduzido em forma de HQ. Depois ficam louvando os desenhistas estrangeiros que encontram fórmulas simples de identificação com o leitor. Tem coisa de sobra, assunto para dar e vender neste país para se roteirizar. E, além disso aqui primeiro se concebe o desenho e depois a história. Sem uma boa história, aquele enredo que agarra o leitor do começo ao fim não tem quadrinho. Sem a gente partir do local, fantasiando nunca conquistaremos um lugar no mundo. Os desenhistas que o fizeram bem como os escritores e cineastas tiveram seu nome reconhecido.

O que você achou do fim dos formatinhos da Abril?

Os formatinhos da Abril provam a inconstância editorial. O Brasil não tem uma linha editorial feita para durar. Só pensamos em lucro imediato, moda, etc.

Você trabalhou na Europa, onde os quadrinhos tem um
conceito mais artístico. Como é a sua concepção de
quadrinhos, uma vez que tem referências/experiências
de escolas tão diferentes (japonesa, brasileira e européia)?

Foi na Europa que começou a reversão do processo dos quadrinhos enquanto imagem negativa que os Estados Unidos começaram a pregar após a Segunda Guerra (vide artigos em revistas como a Seleções na década de 50 e 60). Os europeus, nos anos 70, levaram os quadrinhos para os museus de arte, para discussões literárias, semiológicas e interpretaram os quadrinhos - além do seu status como arte - como de conteúdo inestimável. Portanto os próprios artistas se sentiram (e se sentem ) parte deste universo digno. É preciso mudar a mentalidade dos brasileiros (editores, leitores e dos próprios artistas ) para alcançar este patamar de dignidade.

Qual a importância da internet como veículo para os quadrinhos?

A internet é de vital importância hoje. Primeiro, acaba com as máfias de distribuição. Os quadrinhos passam a ser acessíveis para quem tem internet. Ainda não é suficiente pois ainda é um produto de elite. Boa parte dos brasileiros ainda estão passando fome e a internet ainda não é prioridade. Mas dá chance aos desenhistas de mostrarem seu trabalho e aí, pelo sucesso, passa a ser publicado em revistas. Veja o caso, por exemplo, do Fábio com os Combo Rangers.

Entrevista e foto: Andhye Iore

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