TRANSMETROPOLITAN
Um olhar caótico sobre a civilização
O jornalista Spider Jerusalem detona a mente das pessoas em meio à confusão teconológica, religiosa e humanista do futuro em "Transmetropolitan"

Andye Iore, 2002


Spider Jerusalem: jornalismo num futuro politicamente incorreto

O selo Vertigo da Dc Comics tem uma lista de títulos onde o conceito de história em quadrinhos traz elementos que intrigam e instigam o leitor.

Depois da onda Sandman – que continua forte em muitos países, inclusive no Brasil – o estilo fantasioso deu lugar à visceralidade das aventuras e mistérios de personagens como Jesse Custer (de "Preacher") e John Constantine (de "Hellblazer").

O mais recente membro dessa galeria onde os heróis não são bem heróis, mas humanos comuns com algumas peculariedades – e quase anti-heróis - é Spider Jerusalem.

Criado para a extinta Helix Comics, "Transmetropolitan" foi o único título que sobreviveu e passou a ser publicado pela Vertigo há cinco anos.

Com clima de ficção científica, num futuro caótico com televisão a cabo com milhares de canais e outras milhares de religiões dividindo a atenção da população com mordomias tecnológicas, "Transmet" é uma crítica social com forte teor satírico. No futuro de "Transmet", as pessoas não terão seus 15 minutos de fama, mas comerão hamburguer de macaco e se esbaldarão num balde cheio de olhos de caribu.

ESQUISITO


Os dois primeiros números da edição brasileira

O veículo dessa sátira é o jornalista Spider Jerusalem.

Careca, todo tatuado (ostentação conferida pelos leitores já que é comum o personagem andar nu pelas histórias), com um óculos com uma lente verde retangular e outra vermelha redonda e um gato fumante de duas cabeças, Jerusalem escreve uma das colunas mais quentes da mídia no jornal The World.

Usando como inspiração a fértil e tumultuada vida urbana, Spider usa os pontos fracos e fortes da cidade para jogar contra sua própria população. Por isso, é figura amada e odiada ao mesmo tempo. Curiosamente, as histórias são cheias de referências sexuais e consumistas, mas o personagem principal está só preocupado em violar a mente do próximo através de seus textos.

Mas, as coisas não são tão fáceis como parecem. O jornalista tem uma dívida de dois livros com uma editora. Para piorar, seu chefe mandou uma estagiária vigiá-lo para que sua coluna continue a ser publicada e o jornal venda mais. É nesse ambiente lunático misturando o stress da vida em qualquer cidade com o stress do jornalismo, que Spider Jerusalem é temido até pelo presidente.

OLHAR

Vale ressaltar que "Transmetropolitan" é uma das hqs que mais tem identificação com o mundo real. Além de apresentar conceitos jornalísticos como "aprender a olhar o mundo", o personagem não é uma fachada como Clark Kent ou Peter Parker. Sem meias palavras, Jerusalem destila "... a p**** do jornalismo não se aprende nas universidades, mas sim fazendo o jornalismo!"

Isso sem contar as indiretas dadas pelo roteirista britânico Warren Ellis e pelo ilustrador americano Darick Robertson, como que conhecemos a cultura de um povo através de sua televisão. Dando uma banana para a ética e moral, a dupla de quadrinhistas criou um título que cabe como uma luva na mensagem "sugerido para leitores adultos" impressa nas capas das revistas da Vertigo.

Infelizmente, "Transmetropolitan" chegou ao seu final nos Estados Unidos em setembro, na edição 60 (capa ao lado). Mas, no Brasil, onde é publicada pela editora Brainstore, suas aventuras estão no começo e tem um longo e agitado caminho. Para quem perdeu os primeiros números, a Brainstore tem um eficiente serviço de vendas pelos correios e dá pra comprar desde a primeira edição.