CARLOS HEITOR CONY

"A felicidade que o Paulo Coelho me dá, eu não preciso dela!"

Assim é Carlos Heitor Cony, jornalista crítico e irônico com mais de 50 anos de experiência profissional. Vivendo no Rio de Janeiro, de onde manda seus textos para a Folha de São Paulo e revista Manchete, Cony ainda mantém o espírito crítico desenvolvido com o saudoso Correio da Manhã, nos duros tempos da ditadura quando foi preso cinco vezes.

Os maringaenses tiveram o privilégio de conferir de perto a vivência de Cony que atendeu, muito atenciosamente, quem o procurou. Antes da palestra na cidade, o jornalista Carlos Cony visitou sedes da imprensa local, deu uma entrevista coletiva no hotel, além de ser entrevistado por dois canais de TV.

Apesar dos temas propostos, como ética e a relação da imprensa com o poder, Cony centralizou sua palestra em exemplos recentes da política brasileira e na vivência social em meio ao neo-liberalismo na Globalização. Confira a seguir uma entrevista exclusiva com o escritor:

Andhye Iore - Levando em consideração a atual tendência sensacionalista dos meios de comunicação e suas movimentações comerciais, seria possível que esses meios seguissem um código de ética?

Cony - A ética é uma coisa geral, é uma coisa humana. O ser humano tem obrigação de ser ético, seja um lixeiro, o presidente ou um jornalista. Em nome da exclusividade, do furo, em nome da prioridade e da informação privilegiada que é sempre ilegal, comete-se vários crimes do ponto de vista ético. Um exemplo recente é o livro "Notícias do Planalto" do Mário Sérgio Conti, que distribui culpas horizontalmente pros colegas, cometeu um erro ético terrível. Ele soube que o secretário de informação da presidência, Cláudio Humberto, estava gastando mais que podia. O Conti teve acesso, por meios ilícitos, ao número do cartão de crédito do Cláudio e ligou pra ele, dizendo que sabia disso. Mas, não publicou nada. O Conti, com poder dessa informação, subornou o Cláudio Humberto que passou a dar informações privilegiadas para o livro do Conti. Dizem, na polícia, que isso é justo. O detetive torna-se cúmplice de um criminoso para o criminoso denunciar os outros criminosos. Mas, não deixa de ser, pensando academicamente, uma falta de ética.

A falta de pesquisa e informação por parte do jornalista pode ser considerada uma das causas da falta de ética?

Em princípio não. A ética é um conceito abstrato por teoria acadêmica. Mas é um fundamento de educação. Quanto à falta de informação, o jornalista é uma formiguinha, compete às empresas fornecer condições de infra-estrutura para que o jornalista tenha acesso ao maior número de informações possíveis.

Com a popularização da Internet o senhor acha que o jornal impresso vai passar por problemas ou modificações?

Bom, eu não acompanho os sites na Internet, só uso para mandar e receber e-mails. Às vezes, a minha filha me mostra algumas páginas que ela acha interessante. Evidentemente o impresso vai passar por modificações. Primeiro, porque agilizou muito a informação. A Internet é mais um elemento de superação da notícia como primeiro combate. Dificilmente, hoje, o jornal dá um furo. Se cai um avião, cinco minutos depois chega uma equipe de rádio, quinze minutos depois chega a equipe de TV, em seguida já está na Internet. E, no jornal, só no dia seguinte. A mídia de Guttemberg, a mídia impressa, vai ter que encontrar o seu leito. E o leito dela será os textos e notas mais sedimentadas, procurar mais a análise que informação. Não adianta competir. O jornal tem que fazer a matéria da queda do avião analisando, entrevistando as pessoas, o diretor da empresa, os erros que aconteceram, o tipo de avião, enfim, dar uma dimensão mais ampla da notícia. Isto, provavelmente, a imprensa vai continuar fazendo. E, na medida que ela fizer isso bem, ela vai sobreviver tranqüilamente.

Muitos jornalistas tem um interesse puramente comercial, trabalham por um salário e não por amor ou paixão jornalística. O que leva a isso?

Eu faço uma distinção. Quando o aluno termina o segundo grau, ele faz uma escolha. Quando se escolhe a comunicação, já se mostra senão um amor, mostra uma certa empatia pela profissão. Primeiro, ele não pode pensar em ganhar dinheiro porque o jornalismo não é uma profissão bem remunerada. Por exemplo, o médico se forma e pode abrir um consultório em uma cidadezinha e, se for um bom médico, ele fica rico. O jornalista não, pois ele precisa se acoplar à uma empresa já existente, ele vai ser empregado de uma organização. Aí entra a competição, ele tem que se distinguir na profissão para ter acesso à sua melhoria profissional, não pode ir unicamente pensando em ganhar dinheiro na profissão. Infelizmente, o que corrompe o jornalista não é a busca do dinheiro, mas a busca do prestígio. Dificilmente você encontra um jornalista que se venda por dinheiro, mas por prestígio é muito raro um que não se venda.

O senhor acredita que o jornal tem que ter uma causa?
Qual seria a maior causa que um jornal deveria seguir hoje?

O jornal não tem uma causa, ele é um serviço social, é um servo da sociedade. Ele faz uma ponte de comunicação entre a sociedade e o governo. O jornal tem causas que giram em torno do serviço público. Às vezes, se fala que o jornal luta pelos trabalhadores, ou que luta contra o FMI, aí são sub-causas. O jornal é uma geléia geral que atende o público prestando informações sobre esporte, saúde, educação, etc.

Andhye Iore, 2000

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