SHOW

Rock’n Loll!!! Guitar Wolf em Campo Grande!

Fazer rock independente não é fácil em nenhum lugar do Brasil. Imagine então o que é produzir um festival trazendo bandas de outros Estados e tendo como atração principal uma dos mais incensados grupos de punk rock do mundo. E isso numa cidade de pouco mais de 400 mil habitantes, longe de tudo e de todos. Pois é, Campo Grande (capital do Mato Grosso do Sul) é o lugar. E só quem esteve no Yeah! Fest! pôde conferir os psico-japas do Guitar Wolf.

A noite de 23 de novembro começou com a prata da casa, o Bando do Velho Jack. Cabe aqui um parêntese histórico: o referido bando é liderado pelo mitológico Bosco, ex-batera do Made in Brazil e do Alta Tensão e, não por coincidência, pai de Jean, baterista dos Impossíveis e produtor do evento. O fato é que o show foi morno, provavelmente em virtude do ainda pequeno número de pessoas presente. Ou talvez o hard rock setentista do grupo, calcado em Allman Brothers e Lynird Skynnird não tivesse o perfil do festival.

Em seguida, foi a nossa vez de subir ao palco. Bêbados, pra variar, fizemos exatamente aquilo que sabemos fazer: um show barulhento e cheio de energia (afinal de contas, é isso o que temos pra oferecer). O mais impressionante, é ver o carinho com que o público campo-grandense recebe o Mechanics, ano após ano. Era então chegada a hora do Guitar Wolf, e eles não deixaram pedra sobre pedra. Covardia com os locais No Pride, que terminaram na raça a primeira noite do Yeah! Fest!

Sábado. Depois de mais um dia de excessos, fomos para a tradicional feira paraguaio-nipônica da cidade, devorar um clássico sobazinho. Quando chegamos ao D-Edge (incrível clube onde estava rolando o festival), os Autoramas já estavam tocando. Gabriel, Simone e Bacalhau, em noite inspirada, deram um belo show. Para muitos, eles eram a atração principal. Na seqüência, os Impossíveis mandaram bala com seu punk rock ingênuo e divertido. Cebola, o vocalista, estava impagável no seu novo visual Gary Glitter. E novamente era a hora do caos.

Cinco minutos de Ramones só para criar um clima, e sobem ao palco Toru (bateria) e Billy (baixo). Começam os primeiros acordes. A postura de Billy é surreal. Tatuado como um Yakuza, ele faz poses, caras e bocas, numa mistura de arrogância e cinismo que se cristaliza em puro carisma. Uma música instrumental toma o lugar dos Ramones ao fundo. E então, vindo do meio da galera, Seiji (guitarra e voz) chega ao palco e pluga sua Epiphone preta de míseros 300 dólares. O ambiente vai pegando fogo. De costas para todo mundo, Seiji levanta a mão fazendo o sinal dos Wolf (uma derivação dos dedinhos de capeta que caracterizam o heavy metal) e o público alucina. _Wolf! Wolf! Wolf!_, puxa o vocalista, e quando tudo indica que a primeira música vai explodir, Toru e Billy sacam seus pentes-finos e dão um trato nos topetes. Um sorriso de orelha-à-orelha toma conta de cada um dos presentes na casa. Seiji brada: "All Light! Lock’n Loll! Jeto Genelation!!!" e o mundo desaba.

Quem acha que os discos do Guitar Wolf são muito sujos e barulhentos, não faz idéia do que os japas são capazes ao vivo. Seiji sobe em cima dos monitores, declara seu amor por Joan Jett beijando um botton na lapela de sua jaqueta de couro preto, e se atira de um lado para o outro, berrando como um celerado. Billy domina o público, disputando sua atenção de igual para igual com o ensandecido parceiro. Toru, alucinado, espanca a bateria como se quisesse matá-la.

Em determinados momentos, o som é tão alto que as pessoas de ouvidos mais sensíveis precisam dar uma circulada para preservar os tímpanos. Mas os Wolf não dão trégua. Como se fosse uma Uzi, Seiji aponta sua guitarra para o público, que responde urrando de alegria. A coisa começa a ficar cada vez mais absurda. Enquanto Toru e Billy tocam uma base qualquer, o guitarrista estica o braço para as bem-aventuradas almas ali à sua frente. Eu, que estava na fila do gargarejo, sou empurrado e então ele me agarra pelo punho, me joga em cima do palco e pendura a guitarra no meu pescoço. Atônito, vejo Seiji me passar sua palheta, contar até três e, de repente, EU sou o Guitarrista do Guitar Wolf! Sem saber uma nota sequer! Seiji pega o microfone e se atira aos meus pés, enquanto faço o máximo de barulho e pose que me são possíveis. Tocamos uma ou duas músicas, sei lá. Perdi completamente a noção do tempo. Devolvo a guitarra e fico embasbacado ao lado do palco. O psicótico sobe então no P.A. mais alto e, de guitarra em punho, voa sobre os pedestais, quase caindo em cima da bateria. Êxtase. O bis? Fujiyama Attack.

O azar do festival acabou sobrando para os Irmãos Rocha! Por causa do atraso no vôo do baterista e de um contrato com o clube (no qual às 4:30 um DJ paulista deveria começar a tocar), os caras - que viajaram 25 horas de ônibus - só puderam mandar 3 músicas. Uma pena.

Algumas perguntas têm ficado na cabeça do nosso mundinho indie. "Por que só dois shows no Brazil? Por que logo em Campo Grande?". As respostas são, respectivamente, agenda lotada e trabalho duro dos Impossíveis. Imagino que os japas bagaceiros ficaram loucos com a idéia de tocar num local exótico como o Mato Grosso do Sul e tomar um suculento caldo de piranha. Tanto que trouxeram uma equipe de 7 pessoas (entre fotógrafos, cinegrafistas e um manager gente-fina, de nome impronunciável, que toca numa banda de covers, o Tókio Blue Cheer), que trabalhou incessantemente na produção de um documentário para a TV japonesa que se chamará Guitar Wolf in Campo Grande. Para quem não foi a este primeiro Yeah! Fest!, pode ser a saída para ver o que eles aprontaram aqui no Brasil.

Márcio Jr. é vocalista do Mechanics e eventual guitarrista do Guitar Wolf.

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