PUNKA V

Não há dúvida: a cena underground sergipana vem retomando sua força e o PUNKA é o festival que melhor representa essa cena, por vezes tímida e mal divulgada, porém não desprovida de talento e qualidade. Foi isso que os cerca de 1.500 pagantes puderam comprovar na quinta edição do melhor, mais organizado e maior evento alternativo do estado desde o Rock-SE, que chamou a atenção da mídia especializada nacional pelos idos de 98 mas durou apenas duas edições. O PUNKA já se consolidou no calendário cultural da cidade de Aracaju e cria expectativas nas semanas que antecedem sua realização anual – sempre entre os meses de setembro e novembro.

OS SHOWS

Às 16 horas (horário previsto para o início dos shows) uma molecada "in black" já se amontoava na porta do enorme galpão em frente à Nortista esperando os primeiros acordes distorcidos. Eu tinha passado o som e tudo corria tranqüilo, muitos ingressos tinham sido vendidos antecipadamente e os organizadores pareciam confiantes apesar da correria.

Rampa de skate sendo finalizada, stands de Cds sendo montados, e eu fui em casa rangar e me preparar para a maratona sonora. Perdi os dois primeiros shows, que começaram depois das 18h (defeito 1: atraso). SHIVERY tem pouca estrada ainda e os próprios integrantes não gostaram da performance. Outros falaram que o som não tava legal. Espero ver o próximo, de preferência num pub enfumaçado pra realçar o grunge rock deles.

A WORD’S GUERRILLA já tem seu respaldo na cena e um CD-demo, é comandada pelo lendário Sílvio da Karne Krua e faz uma espécie de hardcore experimental com letras em português, espanhol e inglês, muito interessante por sinal. Formaram-se os primeiros focos de pogo, dizem.

Chego no recinto com a WARLORD checando o som do palco Xocó. Dez minutos depois entram em ação e transformam o local numa arena heavy que me faz cada vez mais ficar impressionado com a fidelidade e vibração do público metal. O povo cantava as músicas dos decanos de Sergipe e ovacionavam cada passagem instrumental mirabolante! Teve até solo de bateria e um mosh mal finalizado, eu diria, do tecladista Hugo Léo. Ah, apesar de tudo isso o som não tava bom. Eles levaram um "técnico" que conseguiu estragar ainda mais o que já não estava uma maravilha...

No palco Paiol, na parte interna do galpão, entra a primeira atração de fora, mais precisamente de Maceió/AL, o MAD MCZ. Não prestei muita atenção (estava do lado de fora trocando idéia com o povo), mas a mistura de pop, funk e hip hop com regionalismos tava soando redondinha. POLICULTURA MANGUEZAL é um nome no mínimo original e criativo. Os caras são uns figuras e o som, apesar de não fazer muito a minha cabeça, tem sua cara própria. Deram um espaço para a canja muito bem recebida das meninas da LILY JUNKIE. Com certeza, merecem estar oficialmente na próxima edição do PUNKA!

Estamos perto das 11 da noite e ainda tem uma pá de banda pra tocar. Tá cansado? Também fiquei, mas você é rocker de verdade ou não, porra? Então segura a onda aí... A essa altura o leitor já deve ter percebido que a diversidade de estilos musicais era grande, pois esse foi o "lema" da quinta edição do PUNKA: "Todas as Tribos". No público isso se refletia claramente. Vi camisas do The Who e Smiths em meio àquelas de metal do mal com pontas e garfos que tornam o nome da banda ilegível, vi cabeças raspadas e cabelos longos, patricinhas e junkies... sabe que eu acho isso bem legal? O clima era bom (não rolou briga), a cerveja era baratíssima (50 centavos!!!), mas dava trabalho pra comprar (defeito 2: fila).

Eis que surge a revelação do festival: COBALTO 27 veio de Salvador e eu nunca ouvira falar. Estranho, pois conheço todo mundo do rock baiano. Os caras quebraram tudo, com simplicidade e humildade foram conquistando a galera e, no fim, o trashcore aberto a muitas influências marcou bem pro time "estrangeiro". TCHANDALA (heavy tradicional com público fiel por aqui) entra com energia e disposição no palco externo mas durante o show eu tava no camarim conversando e filmando. Não, não tava fumando (tinha gente fumando), estava fil-man-do!!! Estávamos nós Snoozers com os Vitais, Plástico Solar, Cobalto 27 e Ragnarok trocando experiências, zines e Cds, dando entrevistas e rindo muito.

Da janela do camarim assisti a metade do show dos VITAIS, a outra metade foi na frente do palco pra sentir a pressão, esses moleques tocam pesado e eu sou meio suspeito pra falar – das bandas novas daqui é a minha predileta. O baixista da Ragnarok pirou ("é puro Fugazi!"), o público morgou (porque ninguém gosta de minhas bandas preferidas? Algo errado comigo?) e eu espero que lancem logo o CD-debut.

PLÁSTICO LUNAR. Deixe-me respirar porque vai parecer marcação (infelizmente já tive um problema com eles, quando ainda eram Solares), mas não é não. Fiz questão de me deslocar pra frente do palco, recomendei pra um monte de gente que não conhecia, adoro as músicas deles desde que começaram e sou fã do guitarrista – tirou o melhor som de guitarra do ampli Fender que tava lá, usava um xale rosa a la Marc Bolan do T. Rex (glitter total!) e ainda se chama Rafael! Aí os caras começam o show com cover (Pink Floyd), continuam com covers (Steppenwolf, Jimi Hendrix) e terminam com cover (Led Zeppelin). Não entendi esse show por três razões: as bandas daqui reclamam que o público só liga pra cover; o festival reuniu 1.500 pessoas dispostas a prestigiar o trabalho próprio/autoral das bandas; o Plástico tem repertório próprio suficiente e de qualidade pra mostrar.

Deixando claro que não tenho nada contra banda cover (toco em uma!) e que os meninos tocam esses sons setentistas com muita propriedade, deixo a seguinte indagação: será que os psicodélicos-sixties sergipanos não confiam no próprio taco? Alex Sant’anna é mais fã deles que eu e encontrava-se indignado ("Porque os caras fazem música?"). Também quero saber...

Na sequência fui ensurdecer ao som absurdamente alto e distorcido dos mineiros boa-praça do RAGNAROK. Você olha o palco e não acredita que um trio seja capaz de produzir aquela massa sonora, mostraram que experiência faz diferença sim – são dois discos e vários shows por todo o país em quase dez anos – e colocaram a galera na mão. Saíram satisfeitíssimos com tudo e cobrindo a produção, as bandas daqui e o festival como um todo de elogios.

E tem mais alagoano na parada! Os chapas do XIQUE BARATINHO surpreenderam os que não conheciam sua mistura de funk e embolada com côco e rock’n’roll. Faltou o pandeiro, mas ninguém parou de dançar! Conheci eles há um ano no Sesc Pompéia em SP durante o Balaio Brasil, rolou uma jam session com a Sulanca que varou a madrugada... fizeram muitos fãs, espero que voltem.

Eram 2h30 da matina e ninguém tinha mais força. Muita gente foi embora e os cerca de 800 resistentes estavam sentados ou deitados no chão. O pátio estava coberto de copos descartáveis e ninguém mais subia na parede de rapel disponibilizada gratuitamente para o público. Alguns skaters ainda manobravam na rampa e o GEE-O-DIE começava a barulheira lá dentro enquanto eu arrumava o equipamento de palco da SNOOZE. Essa banda é algo perto do que eu chamaria de brutal e bizarro, tudo parece música pop perto deles. Infelizmente tiveram problemas com cabos e com a má vontade do dono do som, executando menos da metade do set previsto... (defeito 3: falta de profissionalismo da sonorização).

Chegou minha vez de tocar (já?) e apesar do horário ingrato foi legal constatar que muita gente estava lá nos esperando. Isso dá uma satisfação interna muito grande. Só sei que estávamos numa sintonia legal e que Clínio Júnior usou e abusou da microfonia com seu novo brinquedinho: um pedal "Bluesbraker", da Marshall. Mas, eu estava ocupado atrás do P.A., sentado à frente do meu kit de um ton, e preciso que alguém comente sobre o show da SNOOZE. Alguém aí se habilita?

Acho que não sobraram nem 200 cabeças para ver a banda punk mais cult da Bahia, a BOSTA RALA. Eu estava desmontando equipamento e conversando com quem veio até nós. Não entendi direito mas parece que não chegaram a tocar.

CONCLUSÕES

Entre mortos-vivos perambulando e gente rindo, beijando ou conversando, eu parei pra pensar, estático e olhando o ambiente em volta: "Puxa, o saldo foi extremamente positivo". No decorrer da semana, conversando com as pessoas, notei que a opinião era generalizada. Muito bom. Ótimo! Essa foi sem dúvida a melhor edição do PUNKA, com estrutura de primeira e organização quase perfeita (as pequenas falhas que encontrei estão listadas durante a resenha tomando Tom Zé como referência: "Fabrication Defect"). Um grande passo foi dado ao se abrir as portas do intercâmbio com bandas de outros estados, fator essencial para elevar o nível das bandas locais e também para constatarmos que o rock sergipano não deixa nada a dever!

Para o próximo ano o foco é o mesmo ("Todas as Tribos") e os objetivos principais são: mostrar a cena underground sergipana para todo o Brasil; trazer alguns nomes consagrados nacionalmente pra cá (já se fala em Garage Fuzz/SP e Dead Billies/BA); trazer a imprensa especializada (escrita e falada) para uma cobertura a nível nacional, além de "olheiros" de gravadoras. Portanto fiquem atentos e prestigiem!!! Até lá.

Rafael Jr. é baterista da Snooze, ex-zineiro e participou pela segunda vez do Punka.
Escrito ao som de Posies, Olivia Tremor Control e The Hang-Ups.

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PUNKA V

Resumo: 14 bandas de 4 estados em 2 palcos – 12 horas de som
Data: 24 de novembro/Sábado
Local: Galpão DIA
Público Estimado: 1.700 pessoas